O que que há? O que está se passando por essa cabeça?
É curioso observar como a mulher apaixonada muda de língua sem anunciar. Ela sente antes de falar, e o que sente chega tão rápido e tão fundo que a palavra, coitada, não alcança. Por isso ela faz gestos inesperados, às vezes um pouco exagerados; não é descontrole, é tradução. É o corpo tentando falar o que a boca não dá conta.
Há mulheres que avançam com uma espécie de coragem repentina, como quem se joga no risco sem pedir permissão. Outras caminham devagar, quase em estado de delicadeza absoluta. Mas todas, quando o homem que desejam se aproxima, entram numa pequena desordem íntima. A voz hesita, o pensamento tropeça, a calma se desmancha. O amor, nelas, não chega disciplinado — chega vivo.
A presença de um homem silencioso intensifica esse movimento. O silêncio dele pesa, não porque seja agressivo, mas porque abre um território sem sinais. A mulher tenta ouvir ali algum gesto oculto, algum indício de que não está sozinha no que sente. Mas o homem, muitas vezes, não aprendeu a nomear o próprio desejo. Falta-lhe vocabulário emocional. Falta-lhe a formação da escuta.
E então ela tenta traduzir por ele. Lê o que ele não diz, interpreta o que ele não formula, organiza o desejo dele como se traduzisse um idioma estrangeiro. A mulher apaixonada torna-se linguagem antes de pronunciar qualquer palavra. É o olhar dela que fala, são os silêncios dela que revelam, é o corpo que se adianta e se retrai como se obedecesse a uma gramática invisível.
A verdade é simples e irrefutável: a mulher apaixonada é a linguagem melhor. Porque não fala apenas com a voz — fala com tudo o que vive. Com o gesto que se entrega, com o medo que treme, com a coragem que insiste. Fala até quando tenta se conter.
Imagem: Daruma. A força do sujeito que se recompõe apesar das quedas, apesar da cena, apesar do Outro.

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