Esqueça o clima, vamos falar da coxinha.


Imagem mídia ninja


Quando a cobertura quer transformar complexidade em trash, ela não hesita. O evento vira anedota, fragmento irrelevante, quase um folhetim político”.


Há algo curioso na forma como a imprensa brasileira decidiu narrar a COP. A cada nova manchete, fica mais evidente esse gesto treinado de reduzir um encontro planetário — de escala histórica, repleto de disputas diplomáticas e urgências climáticas — a um espetáculo de má qualidade. É um esvaziamento calculado: tira-se o ar do que importa, infla-se o que não interessa.

Substituem tensões geopolíticas, negociações de financiamento e pressões da sociedade civil por fofoca palaciana, como se o planeta pudesse esperar. E aí surge o bordão implícito: “Esqueça o clima, vamos falar da coxinha.”

A figura de Janja vira o significante do momento. Não importa o que ela faça, importa o que a imprensa decide projetar nela. A festa inspirada na série A Era Dourada (Netflix) — que em português até ganha mais força do que no título original — funciona apenas como isca, uma desculpa perfeita para mover o foco para longe do essencial. A série fala justamente sobre isso: brilho vazio, disputas simbólicas, política do espetáculo. A coincidência quase parece ironia.

Enquanto isso, os povos indígenas, que deveriam ser sujeitos centrais em qualquer agenda climática no Brasil, aparecem na narrativa jornalística como intrusos. Quando dizem que não têm lugar, não é tumulto: é espelho. É o país sendo confrontado pela própria história. “Se vocês dizem que isso é global, então não nos deixem do lado de fora.” Invadir o espaço é um modo de escrever a própria existência. É inscrição. É resposta. É gesto político. Mas a imprensa transforma tudo em meme. O abraço fora do protocolo no “Macron bonito e gostosão”, cena improvisada das mulheres; o corpo que não se dobra ao script — tudo vira piada, distração, entretenimento barato. E o mundo observa.

Falar em “naufrágio da COP” é um equívoco. A COP está acontecendo — viva, intensa, cheia de movimentos. Os navios estão ancorados, debatendo o futuro. Quem naufragou, e naufraga com cada nova edição, é a imprensa brasileira. A cobertura da COP está destruída. É ela que afunda, não o evento.

O jornalismo político desistiu de elaborar. Troca complexidade por espetáculo. Troca o planeta por uma foto desfavorável. Troca o debate pelo sarcasmo. E assim nos deixa órfãos de análise, de profundidade, de responsabilidade pública. O país, mais uma vez, paga a conta simbólica dessa pobreza de interpretação.

Cláudia Freire.

Formada em História pela PUC-SP, Cláudia iniciou sua formação em psicanálise no Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP) e, mais tarde, ampliou esse percurso na Santa Casa de São Paulo, aproximando clínica, cultura e saúde. Hoje, dedica-se a pensar o país a partir dos cruzamentos entre psicanálise, cultura brasileira e questões indígenas.



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