Entre a Desconfiança e a Urgência:
(…)a modernidade quebra o tempo, destrói o fio contínuo da experiência, produz saltos, abismos, rupturas. Walter Benjamin.
Há dias em que o Brasil se revela mais nítido quando estou em lugares como o Condô¹, onde a arte respira solta, não pede permissão, não aguarda consenso. Cerâmica, xilogravura, teatro, música, pintura, tudo coexistindo como se o pensamento não precisasse de moldura para acontecer. E, no meio disso, sempre surge uma conversa que volta para a mesma pergunta: por que o Brasil vive nesse estado permanente de fervura?
É como se o país tivesse desaprendido a ideia de continuidade. Mas talvez seja mais honesto dizer outra coisa: o Brasil não perdeu a continuidade — ele nunca a teve.
É importante reconhecer isso. Se olharmos a história com honestidade, não há um único ciclo longo e estável no país, nenhuma época em que tenhamos vivido com previsibilidade, administração silenciosa ou um senso constante de futuro. Desde o começo, a história brasileira se moveu em choques, em substituições bruscas, em cortes que não se cicatrizam. O país nasceu de uma ruptura colonial violenta, que desmontou mundos inteiros e os substituiu sem cuidado e sem tempo.
Entre os séculos XVI e XVIII, atravessamos ciclos econômicos que explodiam e se desfaziam: pau-brasil, açúcar, ouro. Cada um criava um universo próprio e o destruía logo em seguida, sem continuidade administrativa, institucional ou simbólica.
No século XIX, vieram novas quebras: a chegada abrupta da família real, a independência com guerra civil, a escravidão estendida até 1888, a República instaurada por um golpe militar. Nada disso construiu um fio contínuo.
O século XX também não ofereceu estabilidade. Vivemos ditaduras, golpes, contragolpes, renúncia presidencial, suicídio, hiperinflação, sucessão de planos econômicos, censuras, redemocratização em sobressalto, impeachment e novo impeachment.
No século XXI, a polarização, a desconfiança institucional, a instabilidade judicial e política, as rupturas sucessivas e a falta de horizonte comum seguem pulsando.
O Brasil tem tradição de sobressalto. Por isso a sensação permanente de que tudo pode cair de novo amanhã. Não é uma anomalia: é a nossa estrutura histórica, repaginada a cada geração. E é esse pulso de rupturas constantes que ajuda a explicar por que o país vive entre a desconfiança e a urgência.
E no entanto, e aqui está a nossa contradição, é um país repleto de gente sábia. Filósofos, antropólogos, psicanalistas, líderes indígenas, artistas de pensamento sofisticado. É um país de onde emergem figuras como Raoni e Krenak e, ao mesmo tempo, vive como se estivesse sempre à beira de um abismo que se reabre todos os dias.
Precisamos de calma. Não a calma da paralisia ou da ingenuidade, mas aquela calma mineral que permite ao país se escutar. Uma calma que não tem nada a ver com resignação, e sim com inteligência e maturidade. Com a coragem de deixar o barulho diminuir a ponto de revelar o que realmente importa, como quando uma casa finalmente aquieta e permite que uma frase seja ouvida em profundidade por todos os membros da família.
A calma benjaminiana. Aquela escuta profunda que só existe quando o mundo diminui os ruídos nervosos e neuróticos . É essa escuta que falta ao Brasil, essa possibilidade de se ouvir sem se atropelar.
O Brasil ainda não conquistou o gesto de quem cria sem gritar, de quem conversa sem aumentar a temperatura da fala, de quem sabe que o pensamento amadurece quando não é atropelado. O país grita em palanque e no púlpito.
Mas talvez o que mais diga sobre nós seja essa oscilação permanente entre duas grandes maneiras de sentir e de reagir ao mundo, que se alternam e organizam a vida coletiva no Brasil. Uma é marcada pela desconfiança, esse estado de alerta contínuo; a outra, pela urgência que transforma tudo em pressa e interrupção. Não se trata de psicopatologia, e sim de um clima emocional que atravessa o país, uma paisagem política sem ética, que molda o modo como sentimos e interpretamos o que vivemos. É justamente aí que a calma mineral, essa que só aparece quando o barulho diminui e o país consegue se escutar com maior nitidez, deixa de ser uma aspiração abstrata e se torna um gesto vital, a possibilidade de um país que finalmente ouve a própria língua, tão linda no modo como oferece diferença no próprio ato de dizer.
Cláudia Freire.
Bibliografia Essencial
BENJAMIN, Walter.
Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 2012.
BIRMAN, Joel.
Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019.
DUNKER, Christian. Uma biografia da depressão: a majestade de todas as doenças mentais. São Paulo: Planeta, 2023.
FREUD, Sigmund.
O mal-estar na civilização. Porto Alegre: L&PM, 2010.
KRENAK, Ailton.
Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
KRENAK, Ailton.
A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
MUCIDA, Ângela.
O sujeito não envelhece. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.
ROLNIK, Suely.
Esferas da Insurreição: notas para uma vida não cafetinada. São Paulo: N-1 Edições, 2018.
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