O que acontece quando a mãe some?
(por Cláudia Freire)
“(…)o amor dela se torna o chão da vida, quase ninguém olha para o chão que pisa”.
Sabe aquela cena onde perguntam a Suzane von Richthofen se ela sente saudade dos pais? Ela diz que sim, que sente, e logo fala da mãe. A voz se afina, o corpo se dobra levemente. Diz que a mãe era carinhosa e sente falta dela. Não sabemos se é lembrança amorosa ou invenção, mas há ali algo que não se apaga: a imagem da mãe que cuida, que toca, que ainda habita o corpo da filha, mesmo que já não exista.
Essa oscilação entre a mãe boa e a mãe má, entre a que dá a vida e a que é odiada, atravessa quase todas as histórias. A menina que amava demais pode ser a mesma que mata. No ato ou no simbólico porque já não suporta a dívida de existir através do amor da mãe. A cisão é humana: amamos aquele que precisamos abandonar.
Há um momento em que o filho precisa destruir a mãe, não com armas, mas com o esquecimento. A separação é necessária; o sujeito só nasce quando o olhar materno se desfaz. Mas o que acontece com ela, com essa mãe que some? Ela se vê esvaziada — o corpo dos filhos, a casa, o cotidiano perdem função. O mundo continua, mas sem a centralidade que a fazia existir. E se não houver um desejo próprio, um nome que a suporte para além da maternidade, ela realmente desaparece.
Mas há outro tipo de mãe, aquela que não tem tempo para sumir porque nunca pôde existir completamente. A mãe que cria os filhos sozinha, que vive em casas precárias, que tenta organizar um cotidiano instável, onde o amor precisa dividir espaço com o medo, com a exaustão e com a falta. Essa mãe não pode falhar e justamente por isso, falha. Não pode sonhar e, por isso, sonha demais. Não pode desejar e, por isso, o seu desejo se entranha nos filhos.
É essa mãe que o rapaz detido invoca quando diz: “eu amo a minha mãe, não queria ter feito isso com ela.” Isso acontece frequentemente. Mesmo os jogadores, que muitas vezes vieram de uma infância difícil, choram quando lembram da mãe; oferecem o primeiro gol da vida para ela. São meninos-homens que se emocionam ao lembrar daquela mãe se esforçando — um pouco cansada…sempre cansada. Essa figura é a mãe que não pode ser totalmente vivida na realidade, mas que permanece viva no campo da imaginação: o nome do amor e da redenção, o rosto do esforço que ninguém reconheceu, mas que eles sentem como dívida.
Antes mesmo de nascer, o filho já é falado, sonhado, inscrito na história materna. Essa mãe o antecede, o abriga e o lança no mundo. Mas o amor que um dia foi tudo precisa ser esquecido para que o filho possa existir. E é aí que ela some, porque o amor dela se torna o chão da vida, e quase ninguém olha para o chão que pisa.
Quando essas mães falam pouco, é a vida que fala por elas: o gesto, a ausência, o corpo exausto que ainda se move. O amor desses filhos vem tarde, vem depois, vem com culpa. Eles amam o que restou da mãe na fantasia — a força, a doação, a imagem de quem deu tudo —, mas raramente conseguem reconhecê-la como alguém que existe para além deles, como um sujeito que também precisou nascer, às vezes tarde, às vezes nunca.
Talvez seja isso que chamamos de “mãe que some”: aquela que um dia existiu demais e depois não pôde mais existir; a que precisou desaparecer para os filhos crescerem; ou a que nunca teve o direito de aparecer porque o mundo não lhe deu lugar.
A mãe some, mas não vai embora: fica nas frestas, nos gestos, nas vozes, nas frases ditas tarde demais; e o filho, quando se dá conta, já é tarde também. O amor à mãe é sempre um amor que chega depois.
Bibliografia:
Freud – Luto e melancolia
Winnicott – O ambiente e os processos de maturação
Lacan – A relação de objeto
Piera Aulagnier – O aprendiz de historiador e o mestre-feiticeiro
TREMEMBÉ-Série exibida na plataforma Netflix, 2025.
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