O HERÓI SEM CARÁTER NA AMAZÔNIA DA COP30 (Que viva Mário de Andrade!)

imagem web.


Há momentos em que o Brasil é obrigado a olhar para si mesmo com uma sinceridade que não costuma suportar. A COP30, realizada na Amazônia, é um desses momentos: a floresta não precisa de testemunhas ou de discursos, nós — humanos — precisamos finalmente admitir que ela existe por si, em sua força própria, e que o mínimo que se espera de nós é deixá-la em paz. A floresta não agoniza; ela resiste. Quem agoniza é o nosso modo de olhar para ela, sempre tentando possuí-la, explicá-la, interpretá-la, nomeá-la, salvá-la.


É nesse contexto que Macunaíma reaparece como uma espécie de convocação. Ler Mário de Andrade agora, com a Amazônia colocada no centro de uma conversa global, não é nostalgia: é necessidade. O romance traz uma inteligência sobre o Brasil que não envelhece. Ele analisa, desde 1928, o nosso fracasso em lidar com aquilo que não controlamos — a terra, o mito, o tempo, o corpo, o outro. Talvez por isso seja tão urgente abrir Macunaíma neste exato momento: não para entender a floresta, mas para entender o homem que insiste em destruí-la.


O muiraquitã sempre foi mais que um amuleto: ele é uma chave simbólica produzida pela imaginação amazônica. Tradicionalmente associado às Icamiabas e aos povos do Baixo Amazonas — especialmente os Tapajós — surge como um ritual, presente oferecido aos homens que atravessavam suas terras. O formato mais comum é o de um sapo esculpido em pedra verde. E aqui há um detalhe fascinante: em japonês, a palavra “muirá” (ou “moira”) ressoa como “sapo”, e para muitos povos amazônicos o sapo é um ser de poder, guardião de forças que atravessam mundos. A coincidência sonora não é apenas curiosa; amplia o campo simbólico do objeto.


O muiraquitã não é peça artesanal: é condensador de camadas — amazônica, mítica, linguística, corporal — que Mário, conhecedor das culturas indígenas, coloca como motor da narrativa. O amuleto perdido move o herói e denuncia que a verdadeira falta não é do objeto, mas do vínculo com território, língua e corpo.


Macunaíma atravessa o Brasil e o século como quem atravessa um sonho em ruínas: errante, metamórfico, infantil e sábio, grotesco e sublime. Chamá-lo de “herói sem caráter” nunca foi acusação moral; foi diagnóstico sobre uma forma de existência marcada pela inconstância e pela falta de origem restaurável. O Brasil, quando tenta parecer adulto demais, falha; quando tenta parecer europeu, desmorona. Macunaíma é a forma literária dessa falha — e é isso que nos humaniza. Ele é sem caráter porque não tem forma fixa. É sujeito fendido antes de Freud. É sujeito movido por um objeto perdido que nunca se cumpre.


O livro usa o humor como dispositivo que funciona como defesa. O povo brasileiro ri para não desabar. Rimos para suportar o insuportável. Mário sabia que a risada brasileira é primeiro sintoma da catástrofe. Por isso Piaimã, o gigante devorador, renasce na cidade como Venceslau Pietro Pietra, o burguês respeitado. A violência muda de roupa: deixa de ser monstro para virar empresário. Piaimã come gente, Pietra come mundos. Ambos devoram o que o Brasil tem de mais vivo. No contexto da COP30, é o mesmo gesto repetido: uma mão destrói enquanto a outra tenta convencer que cuida.


O burguês com máscara de gigante e o gigante com máscara de burguês — eterno retorno da violência brasileira. Benjamin ajuda a ver isso com nitidez: a modernidade produz ruínas enquanto finge progresso. A aura — a força própria de existir no mundo, com sua distância, sua alteridade, seu mistério — se desfaz quando a técnica domina. A Amazônia sitiada é aura arrancada. Mário chamou isso de perda da muiraquitã.


Com Oswald, o diálogo é riso como arma e antropofagia como identidade. Se Oswald devora com estridência, Mário devora com melancolia — e é nessa melancolia que me reconheço brasileira. Reconheço a beleza no que está se perdendo e escrevo para impedir que a perda/falta morra…


Freud é o estudioso que lança luz sobre o sujeito cindido. Macunaíma é a prova literária dessa fenda: o desejo move o herói, mas nunca o estrutura. O objeto falta; o sujeito roda; o mito recomeça.


A Amazônia da COP30 devolve o livro com outro peso: agora a perda não é simbólica; é concreta. Agora Piaimã são as máquinas; Venceslau tem nome e CNPJ; a muiraquitã é a própria floresta. Nós seguimos como Macunaíma: buscando o que perdemos, tropeçando, rindo quando deveríamos lamentar.


No fim, o herói vira estrela. Fixado. Vigilando o planeta Terra.



Um mapa breve para entrar em Macunaíma:


Macunaíma nasce adulto e nasce criança. Em algumas culturas, isso significa que ele não está preso ao tempo linear: ele inaugura o mundo enquanto tenta sobreviver a ele. Seu primeiro gesto é recusar o esforço — e talvez essa seja a crítica mais afiada de Mário ao Brasil: o país que não quer fazer força, mas deseja tudo.


A floresta o cria, mas não o protege. Cada capítulo é uma travessia em que o herói se dissolve, metamorfoseia, quase se perde e reaparece outro. Macunaíma oscila entre encantamento e desastre, como se o Brasil fosse uma corda bamba entre mito e ruína.


Piaimã devora o herói no mato, reaparece engravatado na cidade. O monstro não desaparece quando chega à civilização; apenas muda de roupa.


Cada capítulo é rito, chamado, perda, retorno.


E, no fim, o céu.


“Subir como estrela é finalmente encontrar um ponto fixo — não mais um lugar de passagem, mas de vigília. Macunaíma brilha quando nos convoca a cuidar do planeta, permitindo que ele exista em suas próprias transmutações, em paz, sem a nossa ânsia de domínio”.


Cláudia Freire



Agradecimento


Agradecimento à #SílviadeAmbrósioPinheiroMachado pela aula generosa que iluminou caminhos e nuances desta leitura.



Bibliografia


ANDRADE, Mário de. Macunaíma: O herói sem nenhum caráter.

ANDRADE, Mário de. Carta pras Icamiabas.

PINHEIRO MACHADO, Sílvia de Ambrósio. Estudos sobre Macunaíma.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política.

OSWALD DE ANDRADE. Manifesto Antropófago.

FREUD, Sigmund. O Eu e o Id.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo.

KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu.


P.S.: esse blogger é péssimo. Ocupo meu tempo com a formatação e ele faz o que quer.

#bloggerpessimo #bloggerformatacao


Comentários

Postagens mais visitadas