Quando a CLT vira piada ou coisa de gente antiga, por Cláudia Freire:


Há algo de profundamente perturbador no modo como certas ideias se espalham — como veneno em bala de goma. Nas redes sociais, crianças e adolescentes têm tirado sarro da CLT. Dizem que “é coisa de pobre”, que “quem quer CLT quer ser empregado a vida toda”, como se isso fosse sinônimo de fracasso. E mais: como se a CLT fosse uma relíquia, algo antigo, ultrapassado, que já não serve para o “mundo moderno”.


Mas de onde vêm essas vozes tão novas e tão cínicas? Serão mesmo tão novas assim? Ou há, por trás delas, um script muito bem armado? É legítimo desconfiar: quem ganha com esse riso debochado? Quem se beneficia quando a ideia de direito é ridicularizada e confundida com acomodação?


Não é de hoje que discursos ultraliberais vestem máscaras juvenis para se espalharem como cultura. Bots disfarçados de adolescentes, vídeos curtos em tom de meme, frases feitas que dizem muito pouco — mas que se repetem, repetem, repetem, até que virem senso comum. O trabalho, esse gesto cotidiano que constrói o mundo, vai sendo desvalorizado. E, junto com ele, desvalorizam-se também os corpos que trabalham.


A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) não caiu do céu, tampouco foi um presente do Estado. Foi arrancada com greve, prisões, com sangue, com suor e com as lágrimas dos que morreram sem carteira assinada. É preciso dizer com todas as letras: houve uma história — e ela foi dura. E foi justamente para evitar que o sujeito ficasse à mercê da própria sorte que se construiu um sistema de proteção. Férias, décimo terceiro, licença-maternidade, jornada limitada: isso tudo é conquista. E conquista não se zomba.


Se são crianças e adolescentes que estão dizendo essas barbaridades, não estão dizendo sozinhos. Estão repetindo o que ouvem em casa, na escola, na televisão, nos podcasts de coach travestido de homem muito bem sucedido. Estão crescendo cercados por adultos que glorificam um empreendedorismo que pode ser muito solitário e culpabilizam o fracasso como se fosse sempre preguiça. Estão sendo ensinados a se virar — mas não a viver.


E esse peso, cedo demais, cobra caro. Porque ninguém nasce pronto para carregar sozinho a própria sobrevivência. Porque o excesso de autossuficiência gera medo. Porque o medo, quando não pode ser nomeado, vira angústia. E a angústia, sem acolhimento, vira pânico. E, às vezes, morte.


A depressão que paralisa tantos jovens no mundo inteiro talvez seja um grito não escutado: não quero mais responder a essa cultura. Não quero ser uma máquina de produtividade, não quero medir minha existência pelo saldo do mês ou pelos likes da semana. A depressão, nesse sentido, é também um gesto político, um travamento que diz: isso que vocês chamam de sucesso não me serve.


Mas o que serve?


A infância serve. Serve Monteiro Lobato, serve Agatha Christie na estante da primeira biblioteca. Serve brincar de detetive, de professora, de motorista de ônibus, de cozinheiro, de atriz famosa, de alguém que inventa e reinventa o mundo a partir do seu quarto ou quintal. E aqui, como disse Freud, “ao brincar, toda criança se comporta como um escritor criativo, pois cria um mundo próprio, ou melhor, reajusta os elementos de seu mundo de uma nova forma que lhe agrade. Seria errado supor que a criança não leva esse mundo a sério; ao contrário, leva muito a sério a sua brincadeira e dispende na mesma muita emoção.”


E quando essa infância é amputada, a preparação para o futuro também se enfraquece. Freud observa, ainda, que “quando a criança cresce e para de brincar, após esforçar-se por algumas décadas para encarar a realidade da vida com a devida seriedade, pode colocar-se, certo dia, numa situação mental em que, mais uma vez, aparece essa oposição entre o brincar e a realidade.” Ou seja, brincar é um ensaio de mundo. E sem esse ensaio, o sujeito chega à vida adulta sem repertório simbólico para suportar sua existência.


É preciso defender o tempo da infância, assim como é preciso defender os direitos que sustentam a vida adulta. E a CLT é um desses direitos. Ela não nos diminui. Ela nos protege.


Então não, a CLT não é “coisa de pobre”. E muito menos uma peça de museu. A CLT é coisa de gente que sabe que a riqueza de uma sociedade está naquilo que ela é capaz de garantir ao outro.


Mas há algo ainda mais alarmante em curso. Como nos alertou o filósofo Dany-Robert Dufour, o projeto neoliberal atual busca não apenas desregulamentar as leis, mas também as subjetividades. Em A Arte de Reduzir as Cabeças, Dufour descreve uma nova forma de servidão: aquela em que os sujeitos são convencidos a se livrar de suas referências simbólicas — ética, justiça, história — para se tornarem empresários de si mesmos. É uma servidão voluntária, mas não consciente: ao acreditar que basta “vencer”, o sujeito passa a se ver como produto, e não como cidadão.


Essa lógica não se contenta em desmontar o Estado de direito: ela desmonta também o espaço da infância. Exige sucesso precoce, mesmo que num videozinho idiota do TikTok. Exige monetização da existência, seja pela estética, seja pela performance. Exige visibilidade, sem tempo para subjetivação. E assim se fabrica o novo trabalhador: infantilizado nas relações, exausto nas demandas, moldado para competir com o próprio reflexo.


Nesse cenário, atacar a CLT não é apenas atacar leis — é atacar a possibilidade de futuro. É impedir que as crianças tenham tempo para brincar, imaginar, esperar. É cortar cabeças antes mesmo que os pensamentos amadureçam.



Referências bibliográficas


FREUD, Sigmund. Escritores Criativos e Devaneios. In: ______. Gradiva de Jensen e Outros Trabalhos (1906-1909). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. IX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


DUFOUR, Dany-Robert. A Arte de Reduzir as Cabeças: Sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal. Tradução de Luiz Sérgio Henriques. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.


E-mail claudiafreirelima@gmail.com

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