Imperfeição: o Lugar onde o Humano Descansa por Cláudia Freire
Na clínica, escutamos sujeitos que chegam tomados por uma sensação crônica de falha. Não se trata de um erro cometido, mas de algo que os atravessa como uma espécie de defeito de fabricação. Eles não dizem isso diretamente. Pelo contrário — falam pouco, falam mal, falam como máquinas. Repetem frases truncadas, diagnósticos mal digeridos, pequenas listas de fracassos. “Não consigo parar no trabalho.” “Não tenho nada pra oferecer.” “Acho que tenho algum defeito.” Falam como quem já desistiu de procurar sentido, como robôs que não funcionam direito e por isso acreditam não merecer espaço entre os vivos.
Mas quem escuta sabe: por trás dessa fala automatizada há uma infância desinvestida. Não apenas pela pobreza material, que muitas vezes esteve presente, mas por uma pobreza de olhar. Cresceram sem serem nomeados no desejo de alguém, sem serem esperados. Não houve quem os enxergasse para além do necessário. E quando não há quem sustente o início da existência com alguma ternura, o sujeito cresce rachado, sem eixo simbólico, como quem não pode repousar nem em si mesmo, nem no outro.
Na análise, o analista precisa escutar o que ainda não pôde ser dito, o que se esconde sob a fala mecânica. Aquilo que pulsa por baixo do automatismo, da repetição. Porque a repetição, nesse caso, não é resistência, é sobrevivência. O sujeito repete como quem insiste em existir. Como quem busca, mesmo sem saber, alguém que não desista.
E aí, algo acontece: a imperfeição começa a ser nomeada não como falha, mas como condição. Não como prova de inutilidade, mas como vestígio de um humano que ainda pode se construir. O lugar da imperfeição, que antes era vivido como exílio — “ninguém pode me ver assim” — pode, aos poucos, tornar-se um espaço de repouso. Um lugar onde ser imperfeito não expulsa do laço, mas convida ao encontro.
Mas para que isso aconteça, o analista precisa sustentar algo que talvez seja o mais difícil: a escuta viva. Não uma escuta que apenas tolera o que se repete, mas uma escuta que não desumaniza. Porque é fácil, às vezes, escutar como quem observa um robô emperrado. Difícil é escutar como quem espera que ali dentro ainda haja sopro, carne, desejo.
E então, a pergunta inevitável se impõe: como não morrer enquanto analista diante dessa repetição? Como não se desanimar quando o que se apresenta é sempre a mesma falha, o mesmo retorno à máquina quebrada?
Talvez a única resposta possível não seja salvar o outro, nem salvar a si mesmo, mas manter-se ali — afetado, sim, mas não destruído. E fazer da própria escuta um lugar onde alguém, enfim, possa descansar da perfeição que nunca teve.
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Bibliografia essencial (como fundo vivo deste ensaio):
• FREUD, Sigmund. Escritos sobre a técnica psicanalítica.
• FERENCZI, Sándor. Diários Clínicos; Confusão de Línguas entre os Adultos e a Criança.
• LACAN, Jacques. Escritos; O Seminário, Livro 1 a 11.
• WINNICOTT, Donald. O Brincar e a Realidade.
• BOLLAS, Christopher. A Sombra do Objeto.
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