A ferida inaugural: quando a linguagem nos atravessa, Por Cláudia Freire

O verdadeiro trauma — já disseram alguns analistas — não é o nascimento, mas a entrada na linguagem. Não o grito que rasga o ar ao sair do útero, mas o momento em que esse grito começa a ser recortado, nomeado, gramaticado por um Outro que já fala antes de nós.

Piera Aulagnier, psicanalista que se dedicou profundamente à constituição do eu, escreveu que o sujeito é atravessado por um “discurso do Outro” antes mesmo de poder compreendê-lo. E é nesse atravessamento que ele se funda como sujeito dividido. A criança não nasce em branco — nasce já mergulhada em um discurso materno que a antecede, e que ela precisará aprender a decifrar para poder habitar o mundo.

Essa travessia não é leve. É uma ferida simbólica — a primeira. Lacan nos ensina que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, e não é à toa: o sujeito só se constitui na medida em que se inscreve numa cadeia significante que o ultrapassa. E é nesse ponto que a linguagem aparece não como dom, mas como ferida inaugural. Entrar na linguagem é aceitar uma perda: a perda da unidade, da completude, da sensação de um corpo inteiro e não recortado pelo significante.

A linguagem do bebê é feita de gritos, ritmos, olhares, intensidades. Falar é outra coisa. Falar exige entrar em um código, em uma gramática, em um tempo que não é só o próprio. E por isso, muitas vezes, a fala do sujeito permanece sem um discurso — ela se esgarça, se esvai, se organiza em torno de um inconsciente que não cessa e que, como um céu aberto, não oferece abrigo simbólico.

Falar é diferente de ter um discurso. Muitas pessoas falam — e ainda assim não conseguem dizer. Porque para que o discurso se organize, é preciso que haja um centro simbólico que funcione como ponto de amarração entre o eu, o Outro e o mundo. Sem isso, a fala desliza, se fragmenta, se torna eco de um inconsciente ainda não atravessado pela escuta.

É na análise que essa travessia pode começar. Quando o sujeito se permite escutar a si mesmo — e mais do que isso, escutar o que fala nele — algo se reorganiza. O que antes era ruído, vira texto. O que era gozo bruto, vira sentido possível. E pouco a pouco, esse sujeito encontra a possibilidade de oferecer sua palavra ao Outro — não mais como grito, mas como gesto. O Outro, agora, está introduzido no psiquismo. Não mais como ameaça, mas como presença simbólica com quem se pode, finalmente, viver.


Referências

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 3: As Psicoses (1955-1956). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

LACAN, Jacques. “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

AULAGNIER, Piera. A violência da interpretação: do pictograma ao enunciado. Rio de Janeiro: Imago, 1990.

Comentários

Postagens mais visitadas