O fim do mundo não é um evento, é um processo, por Cláudia Freire

Há um mal-estar profundo atravessando as cidades, as paisagens, os discursos. Uma sensação difusa de que algo está ruindo — mas sem o estrondo típico das tragédias antigas. O colapso do nosso tempo não grita: ele silencia, esvazia, apaga aos poucos. Em vez de cair, desmancha.

Nos Estados Unidos, ao menos dez estados caminham para a inviabilidade econômica e social. Cidades fantasmas brotam onde antes houve indústria, vida comunitária, sonho de prosperidade. O que resta são casas abandonadas, postos de gasolina fechados, redes elétricas obsoletas. A falência não é apenas fiscal — é simbólica. Como escreveu James Bridle, vivemos num mundo onde os sistemas deixaram de servir às pessoas: são os humanos agora que tentam se adaptar a sistemas que colapsam em sua complexidade, enquanto continuam operando como se tudo estivesse bem.

Portugal, por sua vez, escancara o paradoxo da globalização: um país celebrado por suas cidades instagramáveis, enquanto seus habitantes são expulsos para as periferias. O turismo financeiro substitui o morador comum, e as barracas nas ruas lembram que a Europa também é atravessada pelo desmonte de políticas públicas e pela ascensão de uma necropolítica econômica — termo cunhado por Achille Mbembe para descrever sistemas que decidem quem pode viver e quem será descartado.

A crise é, também, climática. A escassez de alimentos, como o leite em pó, não é acidental. É efeito de um desequilíbrio estrutural na produção de insumos, nas cadeias logísticas globais, e, sobretudo, nas condições ambientais. A seca prolongada, o envenenamento dos solos, a elevação das temperaturas tornam inviável manter certas culturas. Naomi Klein já advertia, há mais de uma década, que o capitalismo e o clima não são compatíveis — e que não há como continuar produzindo como antes sem acelerar o colapso.

O que colapsa, porém, não é só o mundo material. Colapsa a narrativa que nos organizava. O século XXI é órfão de futuro. Como diz Ailton Krenak, “a ideia de futuro foi sequestrada” por um sistema que promete longevidade enquanto destrói as condições do viver. A sustentabilidade, palavra reciclada até perder o sentido, tornou-se um pedido tímido em meio ao barulho das urgências. Mas ela é, na verdade, um projeto civilizatório — e, como tal, exige reconstrução coletiva.

Há um eco da Idade Média em nosso tempo: fome, deslocamentos, insegurança generalizada. Mas se, naquela época, havia uma cosmologia — mesmo que cruel — para dar sentido ao sofrimento, hoje enfrentamos um vazio de significados. A pós-modernidade não deixou ruínas, mas restos. E com eles, uma geração que tenta viver entre a ansiedade climática, a exaustão do trabalho precarizado e a implosão das instituições democráticas.

Silvia Federici nos lembra que o corpo das mulheres foi o primeiro território colonizado nos primórdios do capitalismo. Hoje, os corpos precarizados do Sul Global, os corpos negros, indígenas, trans, continuam sendo os mais vulneráveis nesse novo colapso. Eles carregam nos ossos o peso de um mundo que não aprende com suas próprias ruínas.

E no entanto, ainda há resistência. Pequenas hortas, redes de cuidado, tecnologias descentralizadas, epistemologias indígenas, formas de viver que desafiam o modelo hegemônico. “O mundo não vai acabar, ele vai mudar de forma”, diz Krenak. A pergunta que resta é: estaremos à altura do que vem depois?


Bibliografia sugerida:

James Bridle – O Novo Abismo (2022)

Naomi Klein – Isso muda tudo: capitalismo vs. clima (2015)

Achille Mbembe – Necropolítica (2018)

Silvia Federici – O Calibã e a Bruxa (2004)

Ailton Krenak – Ideias para adiar o fim do mundo (2019)

David Wallace-Wells – A Terra Inabitável (2019)

Bruno Latour – Diante de Gaia (2015)

documentário:

https://youtu.be/k1Zm9ASJbvI?si=l9E9W0yglxdC6-MU

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