O amor não é uma Pauliceia desvairada

por Cláudia Freire
Hoje vi um vídeo em que uma mulher chega do trabalho, exausta. Paulo, o marido, orgulhoso, grava uma surpresa: uma mesa improvisada, um espumante, um gesto de quem quer reanimar o cotidiano.
Não sei se ela desprezou o gesto. Talvez só não conseguiu alcançá-lo. Há dias em que o corpo não acompanha o enredo da ternura, e o amor, que tanto promete, pode pesar mais do que o que sustenta.
Pensei nisso enquanto o carro do Uber me levava e tocava, pela enésima vez, uma música sertaneja prometendo que o amor é o caminho. Que o amor cura, salva, refaz. Que basta amar e tudo se ajeita.
Ah, como eu gostaria que o amor fosse um antídoto contra o cansaço, contra a vida que se esfarela nos intervalos do trabalho, das contas, das expectativas. Mas o amor, na sua forma mais humana, não é esse bálsamo. Ele não cura, ele sustenta.
O amor não é uma Pauliceia desvairada.
Não é essa euforia de uma cidade enlouquecida, moderna, vertiginosa, que tenta devorar o silêncio com o barulho das suas promessas.
O amor talvez seja o oposto: um intervalo breve de lucidez dentro do caos, o espaço onde alguém não filma, mas escuta.
E talvez o que Paulo não soubesse é que há dias em que a maior surpresa seria poder simplesmente existir em paz, sem espetáculo, sem câmera, sem a exigência de felicidade.
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¹ Pauliceia Desvairada é o título do livro publicado por Mário de Andrade em 1922, considerado o marco inaugural do Modernismo brasileiro. O termo significa “São Paulo enlouquecida”, e expressa a vertigem e o desassossego da cidade moderna — uma metáfora para o sujeito tomado pela pressa, pelo excesso e pela contradição. Evocar esse título, no contexto do amor, é lembrar que nem toda loucura é poética: às vezes, amar é sobreviver ao ruído do mundo.
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