De Mary Shelley a F. W. Murnau: Dois Mitos Irmãos da Modernidade

Imagem: Nosferatu inteiro, concentrado, expressionista, e atrás dele o Frankenstein-monstro finalmente revelado como escultura humana, corpo fragmentado, costurado, nu no sentido arquetípico, não erótico, mas existencial. 

Concepção e direção imagética: Cláudia Freire

Execução visual (IA): Gegë.


“Embora não sejam mitos propriamente ditos, ambas as histórias exploram temas universais: criação, ambição humana, solidão e medo do desconhecido, o que lhes conferem uma qualidade mítica ou arquetípica no imaginário popular. Por isso, são frequentemente chamadas de “mitos modernos”.


Frankenstein nasce em 1818, mas sua primeira respiração atravessa o século XIX inteiro como uma sombra que se recusa a se dissipar. Não é apenas literatura ; é uma experiência de época condensada em uma figura. Mary Shelley escreve num mundo que descobria a eletricidade, os experimentos de galvanismo, crença fervorosa na capacidade da ciência de arrancar vida da matéria. Mas também escreve num tempo em que essa mesma ciência desorganizava os vínculos antigos, deixando o sujeito moderno diante de um horizonte de incertezas.


Nesse cenário, a criatura costurada em laboratório não é o mal; é o espelho. Ela encarna a ferida da modernidade que acreditou poder controlar a vida, mas não soube sustentar aquilo que despertou. A criatura não nasce sem pai. Ela nasce de um pai que se assusta, que recua, que não suporta o gesto criador que o constitui. Não há abandono no sentido moral, não há deserção deliberada; há o pavor diante do próprio excesso. A solidão da criatura não é ausência de vínculo: é vínculo rompido na origem, é a ruptura inaugural do século XIX, que queria iluminar tudo e tropeçou exatamente naquilo que acendeu.


A criatura carrega essa marca: existir sem garantias num mundo que não oferece garantias. É um corpo que abre a pergunta que atravessa o século XIX: o que fazer com aquilo que criamos quando ele nos encara de volta? O monstro não é monstro é o excesso de humanidade. É a tentativa trêmula de dar forma à vida num século que perdeu o abrigo simbólico. Por isso Frankenstein permanece: ele devolve à modernidade seu desamparo mais íntimo.


Nosferatu, filmado por F. W. Murnau em 1922, nasce de outro tipo de desamparo, tão profundo quanto o primeiro. É a Alemanha depois da Primeira Guerra: devastada, empobrecida, sombria, com um povo que atravessava o sofrimento como quem atravessa uma noite interminável. Não havia verde, não havia cor, não havia chão firme — havia um país tentando existir depois do colapso.


Nosferatu é o corpo desse colapso. Seu rosto alongado, sua magreza, sua palidez, suas sombras projetadas em paredes tortas: tudo nele é sintoma histórico. O expressionismo alemão nunca foi metáfora; foi carne da própria época. Aquele vampiro não suga sangue, ele suga a vitalidade de um país que já não tinha reservas. Ele anda como se carregasse nas costas o luto de uma nação inteira. A paisagem de ruínas não representa um lugar: representa o que restou do humano depois do trauma.


Nosferatu não é o mal; ele é o estado da alma coletiva, o silêncio do início do século XX que ainda procurava linguagem para compreender o que tinha perdido. É a figura que emerge quando o mundo experimenta a sua própria dissolução. Por isso ele permanece no imaginário: porque ainda reconhecemos, na sua forma, aquilo que a história deixou como cicatriz.


Quando colocados lado a lado, Frankenstein e Nosferatu formam uma linhagem de mitos irmãos da modernidade. Não precisam ser comparados pela superfície — criatura e vampiro — mas pelo que carregam de mais fundo: ambos traduzem o desamparo em que a modernidade nasceu e se desenvolveu. Um anuncia o gesto desmedido de criar sem saber amparar; o outro revela o esgotamento de um mundo ferido pelo excesso da própria história.


Frankenstein é o mito da vida que desperta e encontra medo.

Nosferatu é o mito da vida que caminha dentro da perda.

Porque nós continuamos atravessando esse mesmo terreno instável — entre o excesso de criação e a exaustão da existência — procurando alguma forma de permanecer humanos no meio de forças que não controlamos.


Cláudia Freire


Bibliografia Essencial


– Shelley, Mary. Frankenstein; or, The Modern Prometheus. 1818 (edição revisada em 1831).

– Mellor, Anne K. Mary Shelley: Her Life, Her Fiction, Her Monsters. Routledge.

– Baldick, Chris. In Frankenstein’s Shadow: Myth, Monstrosity, and Nineteenth-Century Writing. Oxford University Press.


Filmografia e Referências sobre Nosferatu


– Nosferatu: Eine Symphonie des Grauens (1922), direção de F. W. Murnau, roteiro de Henrik Galeen, inspirado livremente em Dracula (1897) de Bram Stoker.

– Berriatúa, Luciano. Nosferatu: The Making of a Film Legend.

– Eisner, Lotte H. The Haunted Screen: Expressionism in the German Cinema.



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