Misoginia
(…) a misoginia está por toda parte,
as vezes penduradas
em lugares inimagináveis,
como mulheres enforcadas.
Mas as flores…
São elas que escolho.
No quintal da minha avó
plantávamos rosas e temperos,
Jovina, meu anjo…
Procuro seus olhos
em todas as mulheres,
nem sempre encontro…
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Há dias em que o mundo parece feito de seres cinzas, gente que só conversa com o próprio espelho e deixa o resto da vida morrer de sede. Carregam um pensamento duro e infernal. Aquele silêncio que erra o alvo e acerta o corpo das mulheres. E o mais inquietante é que a misoginia não vive apenas nos discursos ou nos gestos óbvios: ela pode estar pendurada em lugares inimagináveis, infiltrada nos cantos mais banais, como se escorasse o cotidiano com palavras que ninguém vê, mas que pesam. Surge onde menos se espera, às vezes escrita sem intenção consciente, como se o inconsciente de alguém vazasse para os objetos.
Uma pessoa misógina vê as mulheres como inferiores, tenta silenciá-las, ridicularizá-las ou reduzir suas vidas a rótulos que as encolhem. Piranha, boazinha, mandona, louca — palavras que tentam encaixar uma existência inteira em categorias degradantes, como se fossem funções e não pessoas. A misoginia trabalha assim: por dentro, por baixo, pelas sombras.
Sempre procurei as flores, mesmo quando o chão era hostil. Plantei rosas, manjericão, onze-horas, as plantas que minha amada amiga Heleninha gosta, cujo nome quase escapa misófinas? Miosótis ! Escuta só o meu inconsciente tentando dizer alguma coisa. No fim, é simples e devastador: a misoginia está por toda parte, pendurada onde menos se imagina.
Escultura feita com aço, de Maria Martins, Desejo Imaginante, MASP-2022. Acervo pessoal.

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