O tempo em que vivemos: a erosão política, econômica, constitucional e mental. Das ditaduras do passado às feridas da democracia no presente

 No olho do furacão. Esse é o tempo que atravessamos. Byung-Chul Han, em Infocracia: Digitalização e a Crise da Democracia, editora Vozes, 2022 lança luz sobre uma era em que a informação, longe de ser libertadora, se torna ferramenta de dominação. A promessa inicial de que a digitalização fortaleceria a democracia, ampliando o espaço de debate e a participação política, se cumpriu parcialmente. O que se vê é uma corrosão silenciosa dos pilares democráticos. A esfera pública, que deveria ser o espaço do encontro e da troca de ideias, fragmenta-se em bolhas onde cada indivíduo se enclausura em suas certezas. A política se esvazia e se transforma em espetáculo. As palavras, que antes circulavam no embate de ideias, perdem sua força diante da manipulação algorítmica. Não se busca mais um espaço de construção coletiva, mas apenas validação.


A guerra entre Rússia e Ucrânia escancara os riscos que rondam as constituições mundo afora. A estabilidade política já não é garantida, e a democracia, que parecia consolidada em tantas nações, revela suas fragilidades diante da reconfiguração do poder global. Nos Estados Unidos, a reeleição de Donald Trump, o homem-rifle que dispara contra tudo que lhe parece diferente, exemplifica esse movimento. Ele não representa apenas um político radical; é o avesso da democracia. Sua força vem do ressentimento, da recusa à alteridade e da glorificação da violência. E, ainda assim, milhões o seguem. Sua ascensão não é um erro de percurso, mas um sintoma do mundo em que vivemos.


Byung-Chul Han descreve esse fenômeno como a fragmentação da esfera pública. Se antes a política estava presente nas mesas do almoço de domingo, onde o pai, um tio ou um primo mais velho tentavam levar o espaço público para dentro de casa, iniciando conversas sobre o Governo que os outros fingiam ouvir, hoje, o que existe é um esfacelamento do espaço público. O diálogo dá lugar ao eco. As opiniões, que deveriam ser construídas pelo embate de ideias, tornaram-se apenas confirmações automáticas de crenças pré-estabelecidas. A sensação de estar bem informado não significa necessariamente compreender o mundo de forma crítica; muitas vezes, significa apenas estar imerso em um fluxo contínuo de dados que não permitem reflexão.


A ilusão da singularidade também se torna evidente. Pessoas que acreditam ter opiniões próprias, na verdade, estão imersas em discursos que apenas reforçam padrões previamente dados. Até os hábitos mais íntimos são absorvidos por essas bolhas. As roupas se repetem, as sobrancelhas seguem um molde, os cabelos são quase sempre loiros com luzes, a maioria alisado. O discurso sobre congelamento de óvulos, por exemplo, tornou-se um bordão repetido sem reflexão crítica sobre o que significa ter um filho aos 60 anos e criar essa criança dentro de uma sociedade onde o individualismo supera cada vez mais o senso de comunidade. É uma festa sem pensamento. A esfera pública, em erosão, se converte em um imenso palco de validações mútuas, e qualquer tentativa de romper esse ciclo pode ser recebida como uma agressão.


Outro conceito fundamental de Han é o dos enxames digitais. Diferente de um coletivo politicamente ativo e estruturado, os enxames são apenas aglomerações efêmeras, guiadas por impulsos e facilmente manipuláveis. Mas a realidade brasileira oferece um detalhe que o autor não explora em profundidade: a infantilização dos coletivos. Muitos movimentos sociais, ao invés de se organizarem de forma madura para produzir mudanças concretas, ficam paralisados em discussões intermináveis e disputas de ego. O problema não é apenas a manipulação digital, mas a própria incapacidade de estruturar um projeto político sólido. O dinheiro chega, e não há um plano claro para usá-lo. A militância se dissolve antes mesmo de se tornar ação. O narcisismo paralisa a política, tornando-a um ciclo de discursos sem consequência.


Ao contrário da crença de que a internet promoveria uma democracia mais direta e participativa, o que se vê é o oposto. A sobrecarga de informações esgota a capacidade de reflexão e crítica. O excesso de dados não gera esclarecimento, mas cansaço. A política se torna um jogo de reações automáticas, sem tempo para elaboração. A democracia se vê enfraquecida não por uma ausência de informação, mas pelo seu excesso desordenado, que impede qualquer pensamento estruturado.


Tudo isso confirma o que Han aponta com precisão: a digitalização da política não libertou o pensamento, mas o aprisionou em um fluxo de estímulos que impossibilitam a reflexão. E esse aprisionamento não é uma condição passageira. Ele se torna o próprio modo de existência da política contemporânea.


O movimento do mundo não cessa. E, paradoxalmente, é esse excesso de movimento que gera paralisação. O mundo gira em alta velocidade, mas repete os mesmos homens, os mesmos discursos, os mesmos padrões. É assim que se constrói um tempo histórico em que Trump, Bolsonaro e seus similares não são aberrações, mas sintomas persistentes de uma estrutura que se realimenta. A política não precisa de mais verdades — precisa de mais espaços de convivência com a palavra, de encontros onde os problemas humanos possam ser tratados sem reduzi-los a respostas prontas. O que está em jogo não é descobrir uma saída, mas entender os impasses, compreendê-los, transformá-los. Porque o furacão não passa — ele apenas muda de forma.

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