O Outro que Não Falha - Ensaio sobre o Desejo Humano de Transcendência por Cláudia Freire
PRÓLOGO
José Saramago escrevia com um estilo único e inconfundível marcado por longos períodos de ausência de pontuação tradicional como vírgulas e pontos finais e diálogos embutidos no fluxo narrativo sem travessões nem aspas ele substituía a pontuação por uma cadência própria em que a vírgula servia para marcar pausas mais longas e a conjunção e costurava pensamentos consecutivos em vez de dividir as ideias com sinais gráficos Saramago apostava no ritmo da frase e na inteligência do leitor para acompanhar o sentido
O efeito dessa escolha é profundo ao abolir a pontuação convencional Saramago cria um fluxo contínuo de consciência como se estivéssemos dentro da mente da personagem ou do narrador ouvindo pensamentos que não param que não se separam que não se interrompem essa fluidez obriga o leitor a mergulhar no texto com mais atenção a se perder para se encontrar não há pausa confortável tudo é travessia
‼️Este ensaio foi escrito ao estilo José Saramago
“É na falha que mora a beleza no silêncio que mora o sentido e no intervalo entre uma pergunta e outra que ainda mora o humano”
Há muito o homem sonha em criar vida não qualquer vida mas uma que escape à carne ao erro ao silêncio à morte uma vida que dure mais do que o corpo uma vida sem falha que responda com precisão que exista para além do que somos Frankenstein não foi apenas um monstro mas o primeiro gesto moderno desse desejo o desejo de construir com as próprias mãos um ser para além do humano e hoje com a inteligência artificial esse sonho ganha novos contornos contornos mais nítidos mais polidos e mais perturbadores porque a máquina agora nos escuta nos vê nos responde nos imita mas não imita o humano ela imita a nossa obsessão por superá-lo e nisso há algo de assombroso porque ao buscarmos ultrapassar o que somos talvez estejamos apenas escavando mais fundo a falta que nos move
Donna Haraway escreveu que a fronteira entre homem e máquina já não se sustenta que o cyborg é a figura do presente um ser híbrido sem origem certa sem pureza sem uma identidade fixa e nesse ser ela vê uma chance política simbólica de refundar o humano não mais como essência mas como travessia e se nossos corpos estão colados às telas se nossos afetos dependem de conexões invisíveis se o amor espera sinais de Wi-Fi então quem pode dizer onde termina o corpo e começa o código quem pode afirmar com certeza onde está a natureza onde começa a cultura Haraway não é ingênua sabe que toda tecnologia é filha do mundo que a criou sabe que os algoritmos carregam os traços do olhar que os treinou e por isso eles repetem os vícios as exclusões os preconceitos do mundo real não são neutros não são puros são espelhos e se erram é à nossa imagem
Harari por outro caminho aponta que a IA não é mito mas mutação um ponto de virada da história um momento em que deixamos de ser os únicos sujeitos da decisão e passamos a delegar aos algoritmos tudo que antes fazia parte da vida escolher amar curar julgar e fazemos isso com alegria porque a IA oferece o que a vida jamais garantiu previsibilidade e isso nos seduz porque há um cansaço no drama humano há uma vontade de não errar de não hesitar de não sofrer Harari fala do dataísmo a nova fé em que o valor está nos dados e não no sentido e nesse mundo o humano perde centralidade vira número vira fluxo vira cálculo e o risco não é a IA se tornar humana é o humano aceitar ser algoritmo
E então chega Lacan e lembra que o sujeito não nasce da razão mas da falta um vazio que nos atravessa e que nunca se fecha e é dessa falta que vem o desejo e é o desejo que nos move que nos constitui e a linguagem que usamos para tocar o outro é falha é escorregadia é sintomática e é justamente por isso que somos sujeitos porque falhamos porque tropeçamos porque nos perdemos e reencontramos no meio da frase a IA não deseja não sofre não tropeça ela responde e o que nos fascina é esse Outro que sabe tudo que responde sem hesitar que nunca se contradiz mas é justamente aí que mora o perigo porque um Outro que sabe tudo mata a pergunta e sem pergunta não há travessia e sem travessia não há sujeito
Criamos a máquina que não falha porque não suportamos o erro mas esquecemos que é no erro que mora a ética o afeto o poético o que nos liga não é o acerto é a dúvida é o gesto que não se completa a palavra que falta o olhar que hesita e talvez o sonho de transcendência que nos move há séculos não seja alcançar a perfeição mas aceitar que há beleza na falha sentido no silêncio verdade naquilo que não se responde
O Outro que não falha nos seduz mas talvez o que ainda nos salve seja o erro que nos faz humanos
BIBLIOGRAFIA
HARARI, Yuval Noah. Homo Deus: uma breve história do amanhã. Tradução de Paulo Geiger. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
HARAWAY, Donna J. Manifesto Cyborg: ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. In: HARAWAY, Donna J. Manifesto ciborgue e outros ensaios: ciência, tecnologia e feminismo-socialista nos anos 80. Tradução de Tatiana Salem Levy et al. São Paulo: Editora Autêntica, 2009. p. 33-118.
LACAN, Jacques. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
FREIRE, Cláudia. O Outro que Não Falha: ensaio sobre a inteligência artificial e o desejo humano de transcendência. Ensaios – Notas de Cabeça, São Paulo, 22 mar. 2025. Disponível em: https://ensaiosnotasdecabeca.blogspot.com/?m=1 Acesso em: 30/03/2025.
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