A blindagem coletiva e melancólica dos Coadjuvantes: Ensaio sobre o livro "Coadjuvantes" de Clara Drummond, por Cláudia Freire para Cia das Letras. Boa leitura!
O livro Os Coadjuvantes de Clara Drummond constrói um retrato afiado, desconcertante e melancólico de uma camada social privilegiada — não a rica classe média alta, mas a classe absoluta, vindoura dos tempos de... como é mesmo o nome do rei que trouxe toda a corte portuguesa para cá? Então, esse rei, cuja corte vive até hoje no Rio de Janeiro, se movimentando com naturalidade pelos centros culturais, pelas viagens internacionais e pelos códigos estéticos de um mundo que parece não precisar de esforço para que alguém exista.
A narradora, uma jovem curadora de arte criada no Rio de Janeiro, observa esse universo por dentro, mas também à margem. Há um olhar ácido, irônico, debochado. Ao mesmo tempo, há entrega. Ela sucumbe aos mesmos códigos que critica. Deseja o que tem e, ao mesmo tempo, não suporta o vazio que isso traz. O livro vai revelando esse paradoxo: um pertencimento desconfortável, uma lucidez que não impede a repetição.
Em um dos trechos mais potentes, a narradora descreve o uso da cocaína como um fenômeno coletivo. Diferencia a “branca” da “amarela”, observa que a substância oferece uma persona pronta para preencher os vazios — “tira a individualização”, ela escreve. Todos assumem a mesma pose, protegida, como se habitassem um espaço onde a alma está blindada. Durante algumas horas, acredita-se que se vive uma alegria incomunicável, exclusiva, quase mística. Mas essa alegria nunca está de fato presente. É uma promessa que se sustenta pela anestesia — uma ilusão branca, ou uma cegueira branca, ao estilo saramaguiano. O livro não exalta esse estado. Pelo contrário: revela sua fragilidade e o quanto ele mascara um desamparo coletivo.
Outro trecho marcante envolve a personagem Vívian, uma jovem católica e virgem, que invade constantemente o território da narradora, seja de forma simbólica ou emocional. Nela, há algo de puro, de ingênuo, de ainda não corrompido — e, justamente por isso, difícil de afastar. A narradora confessa: “nas raras noites em que sinto orgulho e amor pela trajetória, consigo transformar essa vergonha em carinho. Há uma pureza no deslumbre que é pouco falada, é infantil, ingênua, quase doce.” É nesse ponto que o romance ganha camadas mais profundas: a crítica ao universo elitizado se mistura com a saudade de um tempo onde o desejo era puro, mesmo que irreal.
Em outro momento, a narradora enumera desejos — de beleza, prazer, transformação, reconhecimento e amor verdadeiro. Ela quer tudo, inclusive a admiração dos amigos e dos conhecidos, daqueles com quem apenas troca um “oi, tudo bem?”. Esse desejo totalizante revela uma carência estrutural que o livro não disfarça. Ao contrário: expõe. Há algo de profundamente solitário na vida daqueles que podem tudo, eles tentam buscar sentido no que fazem: escrevem, pintam, desenham roupas, fazem escola de negócios no exterior, oferecem no Instagram - a preços de diamantes - o lifestyle que não conhece boletos. O dinheiro surge, não vem de esforços cotidianos, mas de heranças silenciosas, de aplicações feitas por gestores discretos que operam milhões, há gerações. Ele repousa em instituições que não se chamam bancos, mas famílias. Começa no J.P. Morgan, circula pelo BTG Pactual e para não deixar de fora nossos conhecidos de longa data - o Private Banking do Bradesco, ou do Itaú.
Esclareço sem saber se preciso: o que faço aqui é uma leitura prazerosa de um texto que, à primeira vista, pode parecer superficial, mas guarda profundidade surpreendente — talvez qualquer leitor ou escritor que ainda não conheça esse livro possa, sem medo, mergulhar nesse mundo velho que ele oferece. É um mundo que ela descreve como uma delícia quase infantil, mas também atravessado por sofrimento — um espaço de gozo restrito a uma minoria, melhor dizendo, uma "nanominoria" barulhenta, que inspira delírios nas redes, onde se deseja não a vida, mas o lifestyle do outro.
Os Coadjuvantes é, acima de tudo, gozo (no sentido lacaniano) e um retrato melancólico. Clara Drummond entrega uma geração que vive experiências intensas, mas sem chão. Gente que pode ir para onde quiser, sem ter que responder a pergunta estruturante - de onde venho para onde vou? - porque todos já sabem. O livro desconstrói a ideia de liberdade como plenitude e mostra que a experiência humana também pode ser um vazio cheio de brilhos.
“Agora espero, em silêncio, que a catástrofe da minha personalidade volte a parecer bela, interessante e moderna.”
— Frank O’Hara
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DRUMMOND, Clara. Os Coadjuvantes. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
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