O Mal-Estar Adolescente e a Tragédia Denunciada, por Cláudia Freire
Assisti à série Adolescência , lançada em 2025 na plataforma Netflix e dirigida por Philip Barantine. São quatro episódios que acompanham o caso de um menino de 13 anos - Jamie Miller que matou uma colega com múltiplas facadas. Não há suspense: desde o começo, sabemos que foi ele. O que a série persegue é outra coisa — a origem desse gesto, a dor acumulada que o antecede, o silêncio social diante da angústia adolescente.
Assisti com desprazer — não aquele desprazer banal de uma série ruim, mas o desconforto profundo de quem reconhece algo que preferiria esquecer. Continuei porque insistiram: “Vai até o fim, você vai gostar.” Mas o verbo gostar não cabe. Porque é difícil gostar do que nos rasga.
O que mais me marcou não foi a presença do celular, das redes ou das novas tecnologias. Foi a cena com a psicóloga. O menino explode. Uma raiva quase insuportável atravessa a tela. E ali, no meio da fúria, ele diz: “Eu sou feio. 80% das meninas só se interessam por 20% dos meninos.” Uma lógica matemática cruel, aprendida cedo demais, que define quem pode ou não ser desejado e amado. É disso que ele fala. Da exclusão, do desprezo, da sensação de não existir.
Treze anos. É esse o ponto. Treze anos é a entrada no território da adolescência — onde tudo é exagerado, onde ninguém se sente suficiente, onde o mundo parece um lugar hostil. Desde que me lembro de mim mesma, dos meus filhos, dos meus amigos, era assim. O começo da adolescência sempre foi uma terra perigosa. Uma terra onde qualquer olhar pode ser uma arma.
Não tínhamos Netflix. Nem celular. Mas tínhamos o mal-estar. Talvez até maior. Porque tínhamos menos palavras, menos escuta, menos espaço. O adolescente era um mistério que os adultos ignoravam. E o imaginário, sem distrações digitais, tornava tudo mais trágico. “Lembro-me de brigas na saída da escola, motivadas por meninas e meninos que desprezavam uns aos outros. De meninas que se apaixonavam por aqueles que meninos que só as desejavam quando elas já não os queriam. Eu sentia os corações partidos com crueldade”, analisanda falando sobre a série em sessão.
A série não revela nada que já não soubéssemos. Mas escancara o que fingimos não ver: o mal-estar adolescente é real, é perigoso, e se não for cuidado, escutado, acolhido — pode virar tragédia.
Hoje temos mais telas, mais falas, mais redes. Mas será que escutamos melhor?
Nota final — sobre o “animus necandi exacerbado”
No direito penal, há uma expressão antiga, em latim, que ajuda a nomear o que, às vezes, o horror nos impede de articular: animus necandi exacerbado, o “ânimo de matar” levado ao extremo. Em termos jurídicos, não basta a morte de alguém para configurar o homicídio. É preciso que tenha havido intenção.
No caso retratado pela série, o que se viu foi um animus necandi exacerbado. A menina já estava morta, mas as facadas continuaram. A violência prosseguiu mesmo após a vida ter sido extinta. E é isso que torna o crime hediondo: a brutalidade que ultrapassa o necessário para matar. Uma fúria que transborda, que esfarela qualquer vestígio de humanidade no gesto. Uma dor mal tratada que se transformou em destruição.
Talvez o mais assustador não seja o crime em si, mas a constatação de que ele não poderia ter sido evitado. Porque há coisas nos seres humanos que não são notáveis, não são escutáveis. Você olha, olha de novo, sente que algo ali incomoda — mas não sabe o quê. E não consegue sequer formular uma pergunta que abra uma conversa. Há adolescentes que guardam seu universo psíquico em lugares tão profundos que ninguém acessa. Às vezes, nem eles próprios.
E ainda assim, houve alguém. Uma psicóloga que teve coragem e força para se aproximar. E não foi fácil para ela. Porque ajudar alguém a nomear a própria escuridão é entrar, junto, num lugar perigoso. Mas foi ali, nesse mergulho, que o adolescente finalmente disse por que matou. E dizer, talvez, tenha sido seu único gesto de retorno à vida.
É curioso como esse termo — animus necandi exacerbado — não aparece na letra da lei. Não está escrito no Código Penal. Mas apareceu na jurisprudência. Foi dito por um tribunal do júri, pelo Ministério Público, por um juiz, por alguém que estuda e interpreta a lei diante da vida. É assim que o Direito se move: quando a palavra jurídica nasce da urgência de nomear o indizível. Quando, diante de uma violência que não cabe nos moldes do artigo, é preciso criar linguagem.
Não está escrito, mas está dito. E isso também é Direito.
Comentários
Postar um comentário