A arte de reduzir cabeças
A arte de reduzir cabeças: Sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal, livro escrito pelo filósofo francês Dany-Robert Dufour.
Dufour é um pensador importante da contemporaneidade. Esse livro foi publicado no Brasil pela editora Cia de Freud em 2005. Ao lê-lo dei um mergulho denso e tenso na crise simbólica e subjetiva do nosso tempo.
É MEU LIVRO PREDILETO!
A seguir, faço um resumo aprofundado, trabalhando os principais conceitos:
“Estamos em guerra. Uma guerra simbólica foi declarada. Seus alvos: os princípios, os limites, a linguagem e o desejo.”
— Dany-Robert Dufour, Querem Cortar Nossas Cabeças.
Vivemos um tempo em que o simbólico foi decapitado. Os laços que sustentavam a existência — as palavras que nomeavam o mundo, as imagens que ordenavam o desejo, os mitos que davam forma à espera — foram atravessados por uma lâmina silenciosa. Não foi um golpe de espada, mas uma erosão contínua, cotidiana, promovida por uma lógica que, ao se infiltrar em todos os aspectos da vida, retirou do sujeito sua condição mais profunda: a de ser dividido, faltante, desejante.
É disso que trata Querem Cortar Nossas Cabeças, de Dany-Robert Dufour. Um livro que não se contenta com análises superficiais, porque sabe que o que está em jogo não é apenas um modelo econômico ou uma mudança de costumes. Está em jogo o próprio sujeito — e sua capacidade de sustentar um desejo diante daquilo que o atravessa e o limita.
O neoliberalismo, segundo Dufour, não apenas reorganizou a economia, mas instaurou uma nova razão. Uma razão invertida, que já não exige sacrifício, renúncia ou sublimação. Pelo contrário: ela comanda o gozo, impõe o excesso, promove uma subjetividade sem freios, sem lei, sem laço. Cortar as cabeças, aqui, é decapitar tudo aquilo que nos remetia ao outro — ao pai simbólico, ao saber compartilhado, à mediação que tornava o desejo possível.
“A nova figura do homem sem cabeça é aquele que já não pensa, mas calcula; já não deseja, mas consome; já não escuta, mas reproduz.”
— Dany-Robert Dufour
No lugar do sujeito desejante, emerge uma figura exaurida pelo consumo. Um sujeito que não deseja, mas precisa gozar. Que não sonha, mas performa. Que não narra, mas atualiza. Essa nova forma de estar no mundo não permite memória nem projeto. O tempo se achata, reduzido ao instante presente — um presente contínuo, esvaziado, repetitivo.
Ao falar da morte do sujeito, Dufour nos alerta para a morte de uma ética. Uma ética fundada na escuta do desejo, no reconhecimento da falta, na travessia do impossível. Quando isso desaparece, o que resta são sujeitos desorientados, entregues à lógica do mercado, manipulados por algoritmos que conhecem melhor seus impulsos do que eles mesmos.
Mas, talvez ainda reste uma chance. A própria leitura desse livro, com seu nível de dificuldade, exige uma pausa. Uma fresta. Um intervalo no fluxo incessante das imagens e das opiniões. Ler Dufour é reencontrar a espessura do pensamento — e, com ela, a possibilidade de recuperar o fôlego da linguagem, a dignidade do tempo, o enigma do desejo.
É por isso que este livro permanece. Porque ele fala de nós, e do que tentam nos tirar. E talvez, ao escutar esse chamado, possamos não apenas recuperar nossas cabeças, mas voltar a sonhar com um mundo onde o sujeito não seja apenas um dado, mas um acontecimento.
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