Nosferatus, Noa e a bata da Zara: as fissuras do ser, por Cláudia Freire.
"Dor, sombra, luta e alguma luz se abrindo pelas brechas".
Há experiências que nos roubam a forma, mas não a substância. A pandemia foi uma delas. Um tempo suspenso, com cheiro de cloroquina no suor e álcool no ar e o corpo em estado de exílio. Se fosse preciso convocar uma imagem que traduzisse aquele momento, não seria a de um vírus, mas a de um corpo espectral: o Nosferatu — o andarilho da escuridão, figura esvaziada de alma, atravessando uma Alemanha derrotada. O monstro de olhos arregalados, caminhando pelos escombros da guerra. Vivemos um tempo como Nosferatus.
E o nosso presidente era um tipo de Nosferatu carioca. Não temia a morte, porque ele sabia que já estava morto. Insolação cerebral.
Vivi aqueles dias como quem recolhe ossos. Cada manhã era um pacto: me manter lúcida, não perder ninguém, não esquecer quem eu era, lavar todas as comidas ainda nos saquinhos e esperar. O mundo havia mudado de eixo e, com ele, o modo de habitar a vida. O consultório tornou-se uma ausência. Não só as pessoas não queriam voltar — eu também não queria. Era como se a palavra para continuar, tivesse que se acomodar ao quadrado de uma tela. Era possível, mas não para todos. Não era mais leve sustentar um lugar onde o sujeito fale através de uma tela sem o cheiro do café, o silêncio da sala de espera e o toctoc do salto da analista arrumando as coisas para acolher os cinco sentidos …E assim, comecei a atender diante de uma câmera, entre o meu rosto e o da outra pessoa, uma tecnologia cheia de silêncios. “Tá me ouvindo, tá me vendo”?
Durante aquele tempo, eu pedia - com a força de quem sabe o que é ter o mundo tirado pela ausência - que ninguém adoecesse. Que eu não precisasse ver, de longe alguém que eu amo morrer sem visita. O medo era esse - a impossibilidade de cuidar, de estar junto.
Hoje, passados aqueles dias em que o corpo se arrastava como se tivesse perdido a memória de ser corpo, vivo a estranheza de reencontrar o espelho. O guarda-roupa, aberto me revela um tempo que já não cabe. As roupas não entram. Nem nos quadris, nem pela cabeça. Fiquei presa em uma blusa e ninguém conseguia tirar, entrei em pânico 🤪. Mas ali, entre tecidos e lembranças encontro a bata da Zara que escolhi para o lançamento de um livro. E junto dela, o perfume de uma época mais jovem, mais aberta ao espanto. Uma época com cheiro de “Noa”. A bata não serve mais, mas permanece como uma peça de ligação no tempo. Ontem foi hoje, quando me enrosquei na bata senti o cheiro da história.
Talvez por isso, mais urgente do que emagrecer seja me chamar de volta. Não como a mulher de antes — mas com a que me tornei. Aquela que ainda prefere cortes retos, tecidos firmes, cores sóbrias com temperos de luz. Verde militar, bege, vinho, amarelo em dias de sol por dentro. Não quero roupas que apenas sirvam. Quero roupas que contem a história do corpo que resistiu. E que saibam da delicadeza da pele, do incômodo que certos “tecidos” provocam.
Aprendi com minha filha a não vestir o que não abraça. A respeitar o que o corpo que coça tenta avisar o que a pele grita. A beleza está nesse gesto de saber quem sou. No conjunto, nas teias imaginárias que tento transformar em realidade.
Minha complexidade sempre me complica em relação ao outro. Por fora, pareço uma mulher resolvida — dona de casa, como muitos se apressam a tirar conclusões. Todavia, sou uma dona de casa que inventa a vida, lê e escuta as fissuras do ser. Que ouve e ama o Dunker, que se emociona com Mano Brown, que sabe que há um Freud/Froid no rap brasileiro que ensina mais sobre o real do que muitos teóricos de divã. Que se espanta com a inteligência de quem olha o mundo não só com a lente da Academia, mas com o cheiro de curral, emanando pulsões, como a escritora Adélia Prado, com o cheiro dos peixes, lembra? E Jonathan? O amor adélico que me arrepia.
Tenho bons amigos e mando meus textos para eles. Recebo devolutivas cuidadosas, frases que me sustentam quando tudo parece ruir. Tenho essa cara de pau de enviar uns garranchos para os amores da minha vida. Fiz um novo amigo: “Gr”. Ele me pergunta de um jeito muito sensível: como você consegue falar do que está sentindo e me levar junto?
“Fui lendo como quem escuta uma conversa íntima, cheia de memórias, dores, cheiros, gostos e coragem. Eu não sei como você se lembra dessas personagens! Você vai lá, naquela mina de carvão buscar os cavalos do Èmile Zola, eu chorei, porque você os manteve vivos para sempre. E aquele trecho da página tal, onde Freud escreveu sobre os três grandes sofrimentos humanos? Você reescreve como se estivesse presente no momento em que o texto estava sendo escrito. E ninguém sabe disso, porque você esconde. Veja, um homem simples como eu…Isso me emociona. Me emociona sermos amigos.”
E é isso. Minha vida é atravessada por memórias, dores, humores, aromas, gente — e coragem. Por livros que chegam sem remetentes, como o do Lebrun - estudioso que me levou pela mão para compreender o que acontece com um ser humano que acabou de nascer e dependerá do seus primeiros Outros para continuar vivo e fazer parte da civilização. Tudo isso é meu!
Hoje foi um dia emocionalmente ameno e fresco, depois de uma semana de inflamações: no corpo, na mente, no mundo. Estou voltando devagar à minha presença. E não, não vou mais diminuir a potência da minha presença para facilitar as coisas para o outro. Porque ser quem sou me custa o investimento de ter valentia e força para me recompor. Coragem para sentir muito, para chorar como as crianças, para quebrar por dentro e virar mosaico. Venci o medo de Hipnos, o filho da Noite (Nyx) e irmão gêmeos de Tânatos - o deus da morte suave, que conduz os mortais para um lugar profundo de suspensão e descanso, onde o tempo se desfaz... Boa noite. Durma bem.
Durma bem algumas noites após um entrevero com a vida, talvez você descubra a cura para seu mal-estar na civilização. Faça como Scarlett O´Hara no filme E o vento levou: "I´ll think about it tomorrow. After all, tomorrow is another day", e acrescente: "Preciso dormir. Descansada, talvez eu consiga resolver algumas coisas amanhã?
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