Com o pé para fora Por Cláudia Freire
Ter um filho não é destino biológico, não é capricho, não é enfeite de vida. Ter um filho é um ato civilizatório.

O primeiro afeto que nasce conosco não é o amor, é o ódio. O amor é trabalho. Ele precisa ser sustentado, transmitido, investido. É pelo amor da função materna que a criança aprende a se humanizar, que o mundo se organiza em torno dela como lugar habitável. Sem esse gesto, sem esse olhar de reconhecimento, não há civilização possível.
Não se trata de responsabilizar a mãe por todas as coisas que o filho será ou deixará de ser. São sempre dois outros: a mãe e o pai, ou quem assume essas funções. Mas é a mãe, enquanto grande Outro, que carrega em si os marcos da cultura. É ela quem apresenta o mundo, quem empresta seus olhos para que a criança comece a ver. As mães precisam saber disso: que a sua presença funda a possibilidade de um mundo compartilhado.
Por isso, não é indiferente quem cuida de um bebê. Não é indiferente se a mãe — ou quem exerce a função materna — está presente, interessada, disponível. Uma mãe envolvida pode errar, mas o erro dela não é o mesmo que o abandono. Já aquela que delega sistematicamente, que entrega à avó, à sogra, à escolinha, como se amor fosse terceirizável, precisa ouvir: é o seu desejo, e não a rotina institucional, que sustenta o alicerce da cultura.
Amor não é só afeto privado. Amor é política. O modo como uma criança é olhada nos primeiros anos decide se ela poderá amar, respeitar, criar. Decide se ela vai devolver ao mundo algo de vida ou algo de destruição.
E quando chega a adolescência, já não existe tempo para recomeçar do zero. O adolescente está com um pé para fora: fora da casa, fora da infância, fora do espelho admirado dos pais. O que foi plantado retorna. Ali aparecem, em filigrana, os rastros dos primeiros anos: se houve cuidado, se houve presença, se houve a transmissão mínima de que viver vale a pena.
O amor é a condição da cultura. Não o amor romântico, idealizado, mas o amor como responsabilidade, como sustentação da vida. Sem ele, restam apenas corpos lançados ao mundo, carregando o ódio originário sem a chance de transformá-lo em palavra, criação e laço social.
Ter um filho é, portanto, decidir se o mundo continuará habitável ou se será entregue à barbárie.
Bibliografia
KAST, Verena. Amor Radical. Petrópolis: Vozes, 2006.
Uma leitura junguiana sobre o amor como potência transformadora da psique, capaz de renovar vínculos e abrir caminhos de individuação.
KUMAR, Satish. Amor Radical: o amor como prática de transformação pessoal, econômica, social e ambiental. São Paulo: Bambual, 2022.
Um chamado da Escola Schumacher para compreender o amor como princípio político e ecológico, sustentando o tecido da vida em todas as suas dimensões.
imagem: representação relacional, não normativa.
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