A perda da intimidade do pensamento e a irrupção da voz: uma leitura psicanalítica da psicose:

Sinto que perdi a intimidade do meu pensamento. As vozes são altas.” 

Este fragmento, aparentemente simples, abre uma janela para um dos fenômenos mais enigmáticos da clínica psicanalítica: a psicose. Trata-se de uma experiência em que o sujeito, ao invés de se reconhecer como autor de seus próprios pensamentos, vê-se invadido por enunciados que lhe chegam de fora, como se fossem ditados por uma alteridade radical. A perda da intimidade do pensar coloca em questão a relação entre sujeito e linguagem, núcleo problemático que a psicanálise, desde Freud e sobretudo em Lacan, buscou elucidar.

Na vida dita “normal” ou neurótica, o pensamento apresenta-se como algo silencioso e íntimo, sustentando a sensação de interioridade subjetiva. Freud já havia indicado, em seus estudos sobre o aparelho psíquico, que o eu se constitui a partir de processos de identificação e de recalcamento, de modo que o pensamento se organiza em torno de uma cena interna relativamente protegida. Assim, mesmo quando marcado por conflitos inconscientes, o sujeito preserva a experiência de ser “proprietário” do que pensa.

Essa ilusão de propriedade não é natural: é fruto da operação do recalcamento e da inscrição simbólica que confere ao sujeito a possibilidade de se reconhecer como autor de sua fala interior. É justamente essa operação que falta na psicose.

Lacan propôs que a estrutura da psicose decorre da foraclusão do Nome-do-Pai, significante fundamental cuja ausência impede a constituição de um enquadre simbólico capaz de organizar a experiência. Ao invés de serem recalcados, certos significantes não encontram lugar na cadeia simbólica e retornam no real, de forma intrusiva e alucinatória.

Nesse contexto, o pensamento deixa de ser íntimo: ele aparece como vindo de fora, vivido como estrangeiro. As vozes, “altas” no fragmento que nos serve de guia, não são apenas sons externos, mas fenômenos elementares da psicose, em que o Outro se apresenta de maneira direta, sem a mediação da metáfora paterna.

A psicose nos obriga a repensar a relação entre linguagem e subjetividade. O pensamento nunca é puramente interior, pois já é sempre atravessado pela linguagem do Outro. Contudo, no funcionamento neurótico, essa exterioridade é domesticada pela inscrição simbólica. Na psicose, ao contrário, a linguagem irrompe em sua dimensão mais crua: a voz que invade, que interpela, que ordena.

O sujeito, sem a proteção simbólica que garantiria a “intimidade” do pensar, experimenta a linguagem como um excesso. Não há borda que separe claramente o eu do Outro. O espaço interno se dissolve, e a voz alucinatória passa a ocupar o lugar de um supereu absoluto, que fala sem cessar e cuja presença é sentida como real.

— Cláudia Freire

Bibliografia


FREUD, Sigmund. Neurose e Psicose (1924). In: Obras Completas, v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


FREUD, Sigmund. A perda da realidade na neurose e na psicose (1924). In: Obras Completas, v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


LACAN, Jacques. De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose (1957-58). In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.


LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 3: As Psicoses (1955-56). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.


DUNKER, Christian. Estrutura e constituição da clínica psicanalítica: uma arqueologia das práticas de cura, psicoterapia e tratamento. São Paulo: Annablume, 2011.


QUINET, Antonio. A descoberta do inconsciente: das histéricas de Freud à pulsão de morte. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.


CALLIGARIS, Contardo. Introdução à clínica psicanalítica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.

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