O mundo sem centro: 39 segundos de afeto. Cláudia Freire.

Arte : IA
Vivemos tempos de avanços impressionantes. Hoje, abrimos o celular e podemos falar com alguém que está em Madri, em Tóquio ou na Noruega. A tecnologia encurtou distâncias, multiplicou acessos e deu ao cotidiano um ritmo que a Idade Média sequer poderia imaginar. É natural chamar isso de progresso — e, em grande parte, é mesmo. Mas esse avanço não vem sozinho: ele carrega sombras, retrocessos que tentam confundir o mundo e manter vivo o medo, porque o medo ainda é a ferramenta mais eficaz para comandar os homens.
Por isso assusta que, em meio a tantas conquistas da ciência, da cultura e da comunicação, surjam figuras como Trump ou Bolsonaro. Homens beligerantes, que parecem se alimentar do conflito, como se a paz fosse pouco para sustentar sua narrativa.
E então vem a cena: um encontro rápido, 39 segundos entre Trump e Lula, o suficiente para que o presidente norte-americano dissesse que “gostou dele” e que só faz negócios com quem gosta. Ou é estratégia calculada, ou é a marca de alguém que age como um menino empoderado — desses que o cinema americano insiste em fabricar, loiro, cheio de si, chutando portas e batendo em colegas de escola apenas para provar que não tem medo.
Essa infantilização do poder revela uma carência disfarçada de força. O gesto é de domínio, mas a raiz é de fragilidade. Assim como no eleitor brasileiro a carência pede reconhecimento, no líder mundial ela pede exibição.
E ainda ecoa nele a velha ideia de que o mundo teria um centro, sempre nos Estados Unidos. Mas o mundo já não tem centro. O planeta é uma esfera girando, e a política também gira em múltiplas direções. Outros países, outras culturas, outros modos de administrar se levantam, mostrando que há vida para além do império.
O verdadeiro avanço, talvez, não esteja apenas em segurar um celular que atravessa oceanos em segundos, mas em aprender a lidar com a diferença sem transformá-la em ameaça. O mundo sem centro exige maturidade. E é justamente essa maturidade que ainda nos falta.
Comentários
Postar um comentário