A carência estrutural do eleitor

Eu não sou de esquerda.

Por Cláudia Freire

O Brasil é atravessado por uma carência estrutural que se reflete na política. O eleitor, tantas vezes invisível, tantas vezes deixado de lado, entrega seu voto não pela sabedoria da experiência, mas pela emoção de finalmente ser visto. Um sorriso, uma mão na cabeça, uma palavra que o trate como gente: é esse o gesto mínimo de reconhecimento que decide uma eleição.

Mas o reconhecimento é breve, quase ilusório. Passada a eleição, o olhar desaparece, o sorriso some, e o povo volta ao abandono. O país continua entregue a uma casta que acredita que “eu mereço estar aqui” e que o resto, esse povo carente de pão e de palavra, “que se exploda”.

Essa carência do eleitor se soma ao empobrecimento do vocabulário político. Ficamos aprisionados em dois significantes — direita e esquerda — enquanto o centro não se sustenta. Não é apenas a esquerda, com seu lugar e seus objetivos, que morreu, como disse Vladimir Safatle. Morreu também, entre 2018 e 2022 a possibilidade de construir palavras novas que substituam as palavras herdadas de um país invadido, explorado e mantido refém de um vocabulário estreito demais para a nossa experiência.

Governar é um ofício, como a medicina ou a psicanálise. Ninguém se torna médico sem anos de estudo, ninguém se torna analista sem atravessar teoria, análise e supervisão. Mas o Brasil insiste em colocar no poder pessoas sem preparo, sem leitura, sem experiência. O resultado é um improviso que custa caro: candidatos inexperientes, amparados apenas em gestos populistas, chegam ao poder e expõem o país ao desgoverno.

A cena é conhecida: um ministro, em reunião, diz rindo que “enquanto a boiada passa, a gente aprova nossos projetos”. E com a mão, faz o gesto de quem manda, de quem pode tudo. Ali está a perversão: homens para quem a palavra não tem peso, que mentem em palanque e repetem a mentira quando cobrados. Para eles, não existe pacto, nem lei, nem responsabilidade simbólica.

Até a imprensa se deixa arrastar para essa lógica da repetição. O filme O Homem que Copiava virou metáfora da mídia que apenas ecoa. Manchetes substituem análise, cópias tomam o lugar da investigação, e o espaço se abre para a informação rasa e para a avalanche das fake news.

Se quisermos escapar desse círculo vicioso, precisamos de outra gramática. Não basta trocar a direita pela esquerda ou o centro pela sombra. É preciso criar nova linguagem, capaz de sustentar um projeto verdadeiramente comum. Sem isso, ficaremos presos à repetição que fede, porque fede o que não se renova.

A sabedoria popular já dizia: “quem suja o nome do pai, fede”. O Brasil fede porque sujaram o nome da palavra, sujaram a confiança que ela sustenta. E, como na canção, podemos dizer: “a piscina está cheia de ratos, e nada corresponde aos fatos”. Só haverá transformação quando tivermos coragem de inventar uma linguagem à altura da nossa experiência, capaz de transformar a carência estrutural em potência coletiva.

“Eu não sou de direita”.

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