O impossível de graduar. Psicanálise: entre a experiência e a transmissão:
“A psicanálise não se gradua porque, em vez de degraus, ela se transmite em tropeços. Não há diploma que substitua a experiência de se deixar afetar pelo inconsciente.” Cláudia Freire.
A cada tempo, retorna no Brasil a discussão sobre a possibilidade de institucionalizar a formação psicanalítica no formato de graduação. Recentemente, universidades como a Uninter passaram a oferecer um “curso superior em psicanálise”, estruturado em semestres, módulos e ementas, como se a psicanálise pudesse caber no mesmo molde de uma graduação em pedagogia, direito ou enfermagem.
À primeira vista, pode parecer um avanço: abrir o acesso, legitimar a psicanálise no campo acadêmico, criar uma via formal de ensino. Mas a psicanálise resiste a esse enquadramento — e não é por acaso. Sua formação não se transmite como um saber cumulativo, organizado em progressão linear. A transmissão acontece no tropeço, no lapso, naquilo que falta e falha. É justamente ali que o saber se articula.
Freud, com generosidade, deixou uma obra aberta, escrita não apenas para especialistas, mas como herança a quem viesse depois. É comum que o primeiro contato seja com seus textos, que para quem já atravessou uma boa graduação em outro campo podem soar até acessíveis. Mas a formação não se encerra em Freud, nem se inicia propriamente num curso. Ela se dá quando esse Freud é posto em movimento pela transmissão: quando um analista convoca Melanie Klein, com Inveja e Gratidão; quando outro faz ressoar a radicalidade dos escritos de Lacan; quando se atravessa Ferenczi em seu Diário clínico; quando se abre passagem à experiência argentina com Pichon-Rivière e a psicanálise de grupo; ou ainda quando vozes mais próximas, como Christian Dunker, Emir Tomazelli , Sesarino, Maria Rita et.
Esse percurso é sempre atravessado de todos os lados, descentrado, feito da experiência do outro. E é justamente nesse atravessamento que a formação se dá: estudo, supervisão, análise pessoal. Nenhum desses pilares cabe numa grade reta. A lógica universitária supõe linearidade — primeiro semestre, segundo, terceiro. A lógica da psicanálise é outra: o tempo da experiência, que não se mede por créditos.
É nesse ponto que emerge a interrogação sobre o lugar do inconsciente. Se não sabemos localizá-lo no corpo, o que chamamos de psiquismo? Talvez seja mais justo dizer que ele se inscreve no movimento, nas falhas, nos sonhos que insistem. Freud situou no isso esse caldeirão em ebulição: pulsões, restos de memória, imagens fragmentadas, lembranças cortadas. Sonhos estranhos, cômicos, terríveis, repetidos. Sonhos que retornam com suas imagens enigmáticas, rasgadas, fragmentadas. Sonhos que trazem, intacta, a mesma sensação de sofrimento — como se o tempo não pudesse dissolvê-los.
É dessa tessitura que também nasce a convocação para ocupar o lugar de analista. Convocação que impede a qualquer um poder fazê-lo: não por elitismo, mas porque há algo que chama, algo no inconsciente que convoca. É essa convocação que move alguém a se entregar à leitura, a permanecer em análise, a se expor à experiência clínica e ao estudo incessante. E isso pode acontecer em qualquer lugar — até mesmo numa sala de aula universitária. Mas o que funda a formação é sempre o atravessamento pela própria análise, não o diploma.
Desde o início, a psicanálise se transmitiu assim: Freud escrevendo cartas, trocando saberes, arriscando teorias a partir da transferência com seus pacientes. Depois, como ainda hoje, ela seguiu por atravessamentos: em seminários, grupos de estudo, supervisões, pós-graduações que reúnem professores distintos em tempos distintos. Uma semana Denise Bernuzzi, na seguinte Daniel Kupermann, mais adiante Raquel Rolnik ou Maria Rita Kehl. Não há sequência linear, mas encontros que se entrecruzam e se transformam em experiência.
É por isso que a psicanálise não pode ser reduzida a um curso de graduação reta, com degraus previsíveis. O próprio termo “graduar” já denuncia essa limitação: vem do latim gradus, que significa grau, passo, degrau, marcha, ligado à ideia de subir escadas de forma ordenada¹. A psicanálise, ao contrário, não se dá por degraus, mas por atravessamentos, falhas e desvios.
Assim, a psicanálise permanece fiel à sua origem: não como profissão de mercado, mas como destino de experiência. Quem nela busca apenas uma carreira, uma forma de “ter um emprego” ou “ganhar dinheiro”, se engana. A psicanálise não é esse lugar. Ela exige muito mais: análise pessoal, estudo, atravessamento, disposição para suportar o não saber — e a consciência de que sua formação será, sempre, interminável.
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Bibliografia essencial
FREUD, Sigmund. Obras completas.
KLEIN, Melanie. Inveja e Gratidão e outros trabalhos.
FERENCZI, Sándor. Diário clínico.
LACAN, Jacques. Escritos.
PICHON-RIVIÈRE, Enrique. O processo grupal.
DUNKER, Christian Ingo Lenz. Estrutura e constituição da clínica psicanalítica.
KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão.
TOMAZZELLI, Emi. Textos diversos em circulação acadêmica.
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¹ Do latim gradus (grau, passo, degrau), ligado ao verbo gradior (caminhar, avançar). Graduar significa, etimologicamente, “atribuir graus, ordenar em etapas”.

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