A queda narcísica,
Há quedas que não se anunciam. Elas chegam de súbito, deslocam o chão, desmancham as formas conhecidas de se sustentar. Foi assim que vivi, desde os primeiros meses da pandemia até o ano de 2024, o que reconheço hoje como minha queda narcísica.
O isolamento, o medo, a suspensão dos encontros transformaram a relação que eu tinha comigo mesma e com o mundo. O narcisismo — esse arranjo tão humano de acreditar em uma consistência própria — sofreu um abalo. A imagem que me sustentava se fragmentou, e o que restou foi a experiência direta da vulnerabilidade.
Freud, em Introdução ao narcisismo (1914), nos lembra que a constituição do eu depende sempre de uma economia libidinal: o investimento feito em si mesmo e no outro. Quando esse equilíbrio se rompe, o eu vacila, e o sofrimento aparece não como acidente, mas como revelação da estrutura. Foi isso que se impôs: um corpo desinvestido, um eu atravessado pela falta.
A psicanálise mostra que a miséria neurótica não é metáfora. Ela bate à porta e entra. É o que Lacan chamava de encontro com o real: aquilo que não se deixa simbolizar nem domar. No meu caso, ela entrou silenciosa e não havia como expulsá-la. A tentação seria calá-la, mascará-la, distrair-se. Mas percebi, na carne, que o sofrimento não se retira à força. Ele só se transforma quando se aceita recolher-se com ele.
Foi nesse ponto que escolhi o silêncio. Não o silêncio morto, mas o silêncio fértil, aquele que permite à dor se tornar outra coisa. Maria Rita Kehl, ao falar do ressentimento (Ressentimento, 2004), lembra que há dores que só se dissolvem quando encontram outra via de elaboração. O ressentido fixa-se - andando por aí com a boca cheia de passado - o sujeito que aceita o recolhimento encontra no vazio uma passagem. Recolher-se não foi desistir, mas abrir espaço para que a miséria pudesse se inscrever, se elaborar, encontrar vias de metamorfose.
Ferenczi, em seu Diário clínico (1932), sabia bem do que falava quando descreveu o trauma como aquilo que excede a capacidade do sujeito de simbolizar. O traumatizado, dizia ele, carrega uma dor muda, que só pode ser escutada se houver espaço para o silêncio. O “tato psíquico”, expressão de sua clínica, consiste justamente nessa delicadeza de acolher o que não se pode traduzir em palavras imediatas. Reconheci em mim essa necessidade: não falar demais, não correr a preencher, mas deixar o silêncio operar sua lenta transformação.
De 2020 a 2024, aprendi que cair é também encontrar chão. O brilho narcísico não se recompôs como antes — e talvez não devesse. A queda revelou uma forma mais precária, mais nua, mas também mais verdadeira de estar no mundo. Se o narcisismo se desfaz, resta o humano em sua condição mais desprotegida, e é nesse ponto que se abre a chance da criação.
Camus diria que é preciso imaginar Sísifo feliz. Eu diria que é preciso imaginar o sujeito atravessando a queda com dignidade. O sofrimento não desaparece, mas se converte em matéria: texto, silêncio, ensaio, gesto. O que antes era puro peso começa a se tornar palavra e caminho.
Não saí ilesa. Mas aprendi a caminhar de outra forma. A queda narcísica não é o fim; é o início de uma outra versão de si mesma, menos refém da imagem, mais atenta ao que insiste mesmo na falta. E talvez seja esse o legado da pandemia: mostrar que, quando o mundo desaba, o humano só permanece se aprender a transformar sua miséria em obra, em narrativa, em criação.
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Bibliografia
CAMUS, A. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 1996.
FERENCZI, S. Diário clínico (1932). São Paulo: Martins Fontes, 1990.
FREUD, S. Introdução ao narcisismo (1914). In: Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
KEHL, M. R. Ressentimento. São Paulo: Boitempo, 2004.
LACAN, J. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

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