O Rio de Janeiro e o Silêncio Dourado da Corte
Cláudia Freire em passeio ao Rio de Janeiro:
“É melhor ser alegre que ser triste / A alegria é a melhor coisa que existe…” (Vinicius de Moraes, Samba da Bênção)
O Rio de Janeiro é uma cidade atravessada pela beleza e pela brutalidade, por gestos de realeza e gritos de abandono. Entre o mar e o morro, entre o palácio e o barraco, vive uma gente que samba, sofre, vigia, herda, improvisa. O Rio é poesia, mas também é ausência. E sua história parece ter sido escrita em dois tempos: o do ouro e o da falta.
Quando Dom João VI desembarcou na Baía de Guanabara em 1808, fugindo das tropas napoleônicas, trouxe consigo o peso simbólico de um império e a necessidade de reconstruí-lo do outro lado do Atlântico. A cidade colonial foi elevada, às pressas, à condição de capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Vieram com o rei os criados, a nobreza, os móveis de Lisboa, os livros raros e os hábitos aristocráticos que precisavam ser instalados — ainda que o chão fosse de barro e o calor tropical não combinasse com os casacos europeus¹.
A chegada da corte portuguesa não apenas instituiu um novo centro político: consolidou uma hierarquia urbana que persiste até hoje. Bairros como Flamengo, Laranjeiras, Botafogo, e posteriormente Copacabana, Ipanema e Leblon, tornaram-se territórios de uma elite que fala com sotaque arrastado e herda imóveis, capitais e modos de vida. A aristocracia carioca não usa títulos de nobreza — mas carrega sobrenomes antigos, vive em apartamentos silenciosos de um por andar, e trafega com discrição entre clubes fechados e salões privados.
Enquanto isso, nas encostas das mesmas montanhas onde o sol se deita sobre a Zona Sul, favelas foram se erguendo. Não por acaso, mas como resposta à ausência de moradia digna para os que construíam a cidade real: ex-escravizados, operários, camelôs, migrantes. O Rio sempre abrigou, ao lado do luxo, uma multidão sem endereço formal. Mas foi ali que nasceu o samba. “As rosas não falam / simplesmente as rosas exalam / o perfume que roubam de ti”, escreveu Cartola — como quem transforma precariedade em poesia².
Há ainda a classe média carioca, que habita o entre-lugar. Mora em bairros como Tijuca, Méier, Vila Isabel, Jacarepaguá. São professores, funcionários públicos, pequenos empreendedores, artistas, médicos, autônomos. Oscilam entre o medo de cair e o desejo de subir. São maioria silenciosa e resistente. E embora pouco retratada nas narrativas sobre o Rio, sustentam boa parte do cotidiano da cidade — nos hospitais, nas escolas, nos transportes, nas cozinhas e nas redes.
A violência, sempre presente, muda de forma conforme a paisagem. Nos bairros ricos, ela se manifesta de modo sutil: nas cercas elétricas, nos vidros blindados, na ausência calculada do outro. Nos bairros pobres, é visível, barulhenta, letal. Mas em todos os lugares, é estruturante. A cidade se constrói sobre muros visíveis e invisíveis. Há quem more com vista para o mar e quem more sem ver o horizonte.
Mas apesar das desigualdades abissais, o Rio insiste em ser beleza. “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça / é ela, menina que vem e que passa” — cantaram Tom Jobim e Vinicius ao ver uma jovem atravessar a rua entre o Posto 8 e o 9 de Ipanema³. E, nesse instante, fizeram da cidade uma canção.
Ainda hoje, o Rio se move entre o purgatório e a promessa. Como cantou Fernanda Abreu: “Rio, 40 graus / cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos”⁴. Talvez esteja aí sua natureza mais profunda: uma cidade que nunca se resolve. Uma cidade em que a beleza não anula a dor, mas a canta. E em que a dor não sufoca o sonho, apenas o sussurra.
O Rio é barroco e tropical. É cidade real e cidade ferida. É samba, é bala, é jasmim. É o lugar onde o Brasil inventou a si mesmo — e onde ainda tropeça todos os dias ao tentar se reinventar.
Notas
1. A instalação da corte portuguesa no Rio de Janeiro é considerada um dos eventos fundadores da modernidade urbana no Brasil. Cf. Schwarcz & Starling (2015).
2. Verso de Cartola, do samba “As rosas não falam” (1974), símbolo da delicadeza da resistência cultural nas favelas.
3. A “Garota de Ipanema”, composta em 1962, tornou-se símbolo internacional do Rio — tanto da leveza quanto do olhar excludente sobre a cidade.
4. “Rio 40 graus” (1992), de Fausto Fawcett e Fernanda Abreu, revela o lado urbano, tenso e sensorial da cidade nos anos 1990.
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Referências bibliográficas:
SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa M. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Cortez, 2008.
ABREU, Maurício de Almeida. A evolução urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPP, 2013.
ROLNIK, Raquel. O que é cidade. São Paulo: Brasiliense, 1997.
JOBIM, Tom; MORAES, Vinicius de. Garota de Ipanema. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1962.
CARTOLA. As rosas não falam. Rio de Janeiro: Discos Marcus Pereira, 1974.
Gávea.
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