O Corpo em Harmonia e Dissonância
Nenhum corpo toca sozinho. Desde o início da vida, a música interna se forma em relação a outros corpos — primeiro o materno, depois tantos outros que se sucedem como vozes de um coro invisível. Cada encontro acrescenta uma nota, um acorde, um ruído. A harmonia não é um estado fixo; é um instante provisório em que o corpo se ajusta ao ritmo de outro sem perder o seu próprio compasso.
O encontro pode ser um afinador ou um campo de tensão. Há relações que funcionam como duetos, onde um corpo escuta e se deixa escutar, ajustando pequenas dissonâncias até que se alcance um equilíbrio provisório. Outras vezes, a convivência cria fricções: notas sobrepostas que não se resolvem, ritmos que não coincidem, cadências que se chocam. Essas dissonâncias, longe de serem defeitos, podem ampliar a música — desde que haja espaço para suportá-las sem necessidade imediata de resolução.
Na psicanálise, o campo transferencial é um lugar privilegiado para escutar essas harmonias e dissonâncias. O paciente chega com sua partitura marcada por encontros passados, e, na relação com o analista, certas melodias retornam. Algumas se repetem quase intactas; outras surgem distorcidas, pedindo novos arranjos. É nesse espaço que o sujeito pode experimentar pequenas mudanças de tom, explorar ritmos desconhecidos, criar pausas onde antes havia atropelo.
O corpo registra essas experiências. Um olhar acolhedor pode relaxar músculos que estavam tensos há anos; um silêncio hostil pode acender defesas antigas, enrijecendo gestos e diminuindo a amplitude da respiração. Harmonizar-se com o outro exige não apenas vontade, mas a possibilidade de habitar um espaço onde a diferença não seja vivida como ameaça.
Harmonia e dissonância são, portanto, movimentos de uma mesma partitura. Não se trata de escolher uma e eliminar a outra, mas de aprender a suportar o campo entre elas. É nesse intervalo, cheio de tensão e possibilidade, que a música dos corpos se reinventa.
- LEVINAS, Emmanuel. Totalidade e Infinito. Lisboa: Edições 70, 1980.
- ANZIEU, Didier. O Eu-Pele. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1989.
- ROLNIK, Suely. Cartografia Sentimental: Transformações contemporâneas do desejo. Porto Alegre: Sulina, 1989.
- WISNIK, José Miguel. O Som e o Sentido: Uma outra história das músicas. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
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