A falta, a ausência e o desejo em análise

por Cláudia Freire


Quando um analisando falta à sessão, não é apenas um dia perdido na agenda - é um acontecimento clínico. Há quem veja nisso uma distração, uma desorganização, um tropeço na rotina. Mas na escuta psicanalítica, a ausência tem um peso simbólico. É um ato. O analista não deve correr atrás de quem não vem, porque o desejo é o que move a análise.  O desejo se estrutura sobre a falta, não sobre a garantia. Não cabe ao analista oferecer a presença como consolo, nem o espaço como abrigo sem implicação. A análise não é um acolhimento incondicional, é um pacto com o sujeito do desejo. Quem deseja, retorna ou, ao menos, se pergunta por que não retorna.

Cobrar a falta, então, não é castigar. É sustentar que aquele tempo importa. Que houve um compromisso com a palavra, com o desejo de saber algo de si. Não se trata de moral, mas de estrutura: não há laço analítico sem responsabilidade.

Insistir na vinda de quem se retira é ocupar um lugar que não nos cabe. O analista, quando insiste, responde com excesso onde cabia apenas silêncio. É preciso deixar espaço para que o sujeito se escute, mesmo na ausência. E para que, se desejar, volte. Mas volte por sua conta.

Bibliografia

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

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