A toada interrompida: irrupções do inconsciente na análise:

Cláudia Freire – Ensaios, Notas de Cabeça

Há vínculos analíticos que se sustentam durante muito tempo como uma toada: sessões que se repetem, palavras que se enlaçam, sonhos que se contam. O fio transferencial, nesses casos, cria uma espécie de cadência, uma continuidade quase musical que pode dar a sensação de estabilidade. Mas há momentos em que essa continuidade se torna também um risco: o risco de que a análise se transforme em rotina, de que o sujeito se acomode em uma posição que apenas repete o mesmo. É então que a irrupção se faz necessária. Nem sempre planejada, raramente desejada, ela irrompe como corte: o não comparecimento, a interrupção abrupta, o silêncio que se prolonga mais do que deveria. Às vezes, a irrupção se encarna em algo externo — uma doença, um luto, uma mudança de vida. Outras vezes, é a própria relação analítica que implode, tomada pelo excesso de afeto, pelo ódio que se mistura ao amor e que, no sujeito borderline, se manifesta como ferida aberta. No campo borderline, a transferência oscila entre extremos: a idealização apaixonada, onde o analista é visto como aquele que salva, e a depreciação cruel, onde o mesmo analista é reduzido a traidor, incapaz, objeto de ódio. É nesse terreno que a ruptura se apresenta com mais força: como se a continuidade do laço fosse insuportável, e apenas o corte pudesse reconfigurar a cena.

O amor se torna ódio, o apego vira abandono. E, no entanto, é nesse movimento de ruptura que, muitas vezes, a análise encontra sua verdade mais dura: mostrar que o outro não garante estabilidade, que não há Outro que sustente para sempre. E tudo isso se sustenta em uma premissa central: numa sessão de análise, não há controle sobre o inconsciente. Ele se apresenta nos lapsos, nas repetições, nos silêncios e nos atos falhos — e o analista precisa acreditar na existência desse inconsciente, sustentando a transferência e a escuta mesmo quando não há garantias. O analisando, muitas vezes, não está preparado para lidar com esse material que emerge de forma bruta, inesperada, e é justamente aí que o risco de ruptura se acentua. A análise não se organiza a partir da vontade consciente, mas daquilo que escapa a ela.

Durante anos, uma analisanda chegava sempre pontualmente. O olhar brilhava, cada sessão era um gesto de entrega. “Você é a única pessoa que me entende”, dizia, com a devoção de quem descansa no colo de um ideal. O tom era quase de enamoramento, como se o espaço analítico fosse abrigo contra todos os males. Até que um dia, sem anúncio, a atmosfera mudou. Ela entrou com o rosto fechado, jogou a bolsa no chão e disse: “Eu sabia. Você não se importa. Está aqui porque é paga, não porque me ama. Você é igual a todos.” O ódio transbordava. O mesmo olhar que antes pedia colo agora queimava de acusação. No lugar da devoção, a violência do corte. E foi aí que a análise se transformou: a analisanda não voltou mais. O laço rompeu-se como um fio puxado de repente. Mas na ausência, algo permaneceu. O silêncio posterior se inscreveu como testemunho da impossibilidade de fundir amor e ódio em uma unidade estável. A irrupção, embora dolorosa, devolveu a ambos — analisando e analista — a experiência de que o vínculo não é eterno nem garantido, mas atravessado por cortes que obrigam a reinventar a vida.

Essas rupturas não são apenas acidentes do percurso, mas partes constitutivas dele. O que parecia autobiografia linear da dupla se fragmenta em capítulos marcados por cortes bruscos, mas esses cortes também narram: eles contam a história da impossibilidade de totalizar a relação analítica. Cada ruptura é uma irrupção que impede o laço de cristalizar-se em fusão, convocando o sujeito a lidar com a falta e o excesso.

O sujeito borderline, que oscila entre amor e ódio, ensina à clínica que não há cura sem passagem pela ruptura. A idealização precisa quebrar-se para que surja espaço para o real do desejo; o ódio precisa ser suportado como parte da transferência para que não se confunda com falha ou rejeição. Quando a análise atravessa essa toada sustentada apenas pela repetição, e uma irrupção rompe o ritmo, algo novo pode emergir. No fim, o que resta é a marca de uma experiência partilhada. A ruptura deixa cicatriz, mas também inscreve. Como escreve Freud, não se trata de apagar, mas de elaborar. E como lembra Lacan, a análise não se fecha em harmonia: ela exige o encontro com o real, com o que não se simboliza. O amor e o ódio que atravessam a clínica, sobretudo nas estruturas-limite, revelam que a verdade do vínculo não está na sua continuidade ininterrupta, mas na força de se reinventar após cada corte.

Bibliografia FREUD, S. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: Obras Completas.

FREUD, S. A análise finita e infinita (1937). In: Obras Completas. FREUD, S.

Observações sobre o amor de transferência (1915). In: Obras Completas. LACAN, J. O

Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro:

Jorge Zahar, 1985. LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. GREEN, A.

O discurso vivo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988. DUNKER, C. Estrutura econstituição da clínica psicanalítica. São Paulo: Annablume, 2011.

KEHL, M. R. Otempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2009.

McWILLIAMS, N. Psychoanalytic Diagnosis. New York: Guilford Press, 2011.

WINNICOTT, D. W. Ódio na contratransferência (1947). In: Da pediatria à psicanálise.Rio de Janeiro: Imago, 1978.

Cláudia Freire Ensaios – Notas de Cabeça

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Comentários

  1. Que bonita contribuição à clínica dos limites, Cláudia! Viva aos cortes, às pausas, às rupturas...

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