O que é um trauma na psicanálise?

Na psicanálise, o trauma não é apenas um acontecimento violento ou doloroso. É, sobretudo, algo que o sujeito não conseguiu simbolizar no momento em que viveu. Aconteceu rápido demais, forte demais, ou em um momento em que o psiquismo ainda não estava pronto para dar forma ao vivido. O que não pôde ser elaborado fica como uma marca muda, que retorna por outras vias: um pesadelo recorrente, um sintoma que não se explica, uma cena que insiste — mesmo que aparentemente esquecida.

O trauma pode acontecer mais de uma vez ao longo da vida. Às vezes, é a repetição que o revela. Uma nova perda que escancara a primeira. Uma rejeição recente que reabre um abandono antigo. Um som, um cheiro, uma frase — e tudo volta, mas não exatamente como memória: volta como sensação crua, como incômodo que não cabe na lógica do presente.

É aí que aparece a ansiedade.

Quando o sujeito começa a se aproximar do trauma — mesmo sem saber — o corpo sente primeiro. A ansiedade é como um alarme que toca antes da palavra chegar. Um pressentimento de que algo, enfim, está se anunciando. Por isso, muitas vezes, ao se aproximar de certas lembranças ou certos temas, o sujeito sente angústia, náusea, confusão, vontade de fugir. E tudo isso pode ser sinal de que ele está chegando perto. Perto do que foi demais. Perto do que não pôde ser dito.

Mas se ele insiste — se fala, mesmo entre pausas, se volta a falar, se deixa a fala trabalhar — algo pode se transformar. O trauma pode surgir em vários momentos da vida, pois ao viver o trauma aos 30, 40 anos et , o sujeito reviver os anteriores. 

Na escuta analítica, o trauma não precisa ser lembrado como um filme, mas trazido ao campo da linguagem. Quando o sujeito fala mais de uma vez sobre o mesmo ponto, quando vai reorganizando sentidos, a dor pode ir se deslocando. O trauma não desaparece, mas perde seu lugar de comando. Torna-se parte da história do sujeito, e não mais uma ferida aberta que o define em silêncio.

Falar do trauma é dar forma ao que um dia foi só ruptura. É fazer do susto um capítulo — e não mais a linha que costura tudo por baixo.

Bibliografia

Freud, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). In: Obras Completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

Freud, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). In: Obras Completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

Freud, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926). In: Obras Completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

Lacan, Jacques. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

Lacan, Jacques. O Seminário, livro 10: A angústia (1962-1963). Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

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