O ombro de concreto - Ensaios-Notas de cabeça, Cláudia Freire:
Alguns corpos não se encontram. Encostam-se, mas não se atravessam. Aproximam-se, mas não se comunicam. O gesto que deveria abrir caminho se torna obstáculo, e o abraço, ao invés de dissolver a distância, apenas a confirma. O ombro de concreto é a imagem do não-encontro: ele sustenta sem acolher, suporta sem aquecer. A cabeça repousa, mas não encontra repouso. O contato existe, mas não gera passagem. E o corpo que busca abrigo descobre apenas a dureza daquilo que não cede. Freud, ao falar do desamparo primordial, lembrava que o bebê depende do outro para sobreviver. Quando esse outro falha em dar calor, instala-se uma marca silenciosa: a experiência de estar próximo sem realmente ser acolhido. O adulto que se deita sobre um ombro de concreto revive, em certa medida, essa memória primeira.
Lacan, por sua vez, dizia que “não há relação sexual” ̶ não no sentido literal, mas como afirmação de que não existe encaixe perfeito entre os desejos. Sempre há um furo, uma falha, uma incompletude no encontro. O ombro de concreto é uma encarnação dessa impossibilidade estrutural de plena correspondência.
Winnicott chamava de holding a experiência de ser sustentado pelo ambiente. Quando o colo não é suficientemente bom, o bebê encontra dureza onde deveria haver maciez. Mais tarde, esse eco aparece no abraço que não aquece, na proximidade que assusta.
André Green nomeou essa presença dura como a experiência da mãe morta: alguém que está ali, mas não transmite vitalidade, não devolve calor. O corpo presente, mas inacessível, deixa no outro a sensação de concreto em vez de abrigo. Essa experiência revela uma verdade dolorosa: há corpos que não compartilham a mesma linguagem sensível, que não encontram o compasso de uma música comum. O que um oferece, o outro não reconhece. O que um deseja, o outro não sabe dar. Ainda assim,reconhecer o não-encontro pode abrir uma saída. Nomear o concreto é deixar de insistir na fantasia de que, um dia, ele será travesseiro. O reconhecimento não traz maciez imediata, mas devolve ao sujeito a dignidade de saber onde está. Reconhecer é deixar de bater em portas que não se abrem e, nesse gesto, abrir espaço para desejar outras portas, outros ombros, outros encontros possíveis. O ombro de concreto continua sendo duro, mas já não aprisiona.
Bibliografia: Freud, Sigmund. “Projeto para uma Psicologia Científica” (1895) e “Três Ensaios
sobre a Teoria da Sexualidade” (1905). Lacan, Jacques. “O Seminário, Livro 20: Mais, ainda”
(1972-1973). Winnicott, Donald W. “O ambiente e os processos de maturação” (1965). Green,
André. “A mãe morta” (1980).Cláudia Freire
#claudiafreire #relacionamentos
Comentários
Postar um comentário