Vale Tudo:


por Cláudia Freire

Em 1988, o Brasil promulgava a Constituição, e nas televisões ecoava a voz de Cazuza: “Brasil, mostra a tua cara!” Era o grito de uma geração que acreditava na democracia como promessa e denúncia. Ao mesmo tempo, Vale Tudo, a novela de Gilberto Braga, nos mostrava o outro lado do espelho — um país onde ética, dinheiro e desejo se misturavam numa lama moral que ainda hoje não secou.

No centro, quatro mulheres moviam a trama — Raquel (Regina Duarte), Maria de Fátima (Glória Pires), Solange (Lídia Brondi) e Odete Roitman (Beatriz Segall). Elas eram espelhos de um Brasil dividido: a trabalhadora que sobe pela força do próprio trabalho, a filha ambiciosa que trai, a classe média que sonha com ascensão e a elite que despreza tudo o que cheira a povo. Raquel, vendendo sanduíches na praia, encarnava uma dignidade insurgente, uma mulher que acreditava no trabalho e na justiça, mesmo quando o país inteiro parecia rir disso.

Décadas depois, em 2025, o remake veio como promessa de atualização. A escolha de duas atrizes negras — Taís Araújo e Bella Campos — parecia, à primeira vista, um gesto político, um acerto histórico: finalmente as protagonistas da ascensão e d exclusão social teriam rostos negros. Mas a narrativa se distorceu. A Raquel da nova versão termina de volta à praia, empobrecida, enquanto o discurso da inclusão se dilui num roteiro que reitera o mesmo destino: a mulher negra volta ao ponto de partida. É difícil não perceber o movimento inconsciente aí. Sob o verniz progressista, a trama repete a lógica ancestral que o racismo estrutura, aquela que diz, silenciosamente:

o lugar do negro é no trabalho braçal, não na vitória”.

O inconsciente social se revela não só no texto, mas na estrutura que o sustenta. A autora e o diretor, ambos brancos, podem ter desejado “incluir”, mas o desejo, como ensina a psicanálise, não se alinha com a consciência. Há uma contradição pulsante: o enunciado é de igualdade, mas enunciador goza em repetir a exclusão.

A psicanálise nos ensina que o sintoma é uma verdade que retorna disfarçada. O que não se elabora, repete-se. E o que a sociedade brasileira não elabora — o trauma colonial, o racismo estrutural, a culpa pela desigualdade — reaparece, travestido de espetáculo. O remake de Vale Tudo é o retorno desse recalcado. Por mais que se enfeite com discursos de diversidade, ele ainda encena a mesma fantasia: os negros podem até subir, mas precisam cair. O desejo social não é o de igualdade; é o de conservar o lugar do outro, aquele que trabalha, serve, alimenta.

Há um gozo perverso em assistir à queda de Raquel. A televisão oferece a catarse do castigo: quem ousa romper o destino deve ser devolvido a ele. É o gozo do senhor colonial, disfarçado de entretenimento. A Raquel de 1988 era o sintoma de um país em transformação; a Raquel de 2025 é o sintoma de um país que volta para o mesmo ponto — o gozo da repetição.

Entre uma novela e outra, passaram-se quase quarenta anos e a pergunta de Cazuza continua em aberto: “Brasil, mostra a tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar aqui”. A resposta talvez esteja na própria novela: o Brasil ainda não suporta ver quem paga, nem quem vende, nem quem ousa atravessar o espelho.

Não suporta ver quem paga, porque fechar os olhos para o sofrimento coletivo é a forma mais antiga de negar a culpa. Não suporta ver quem vende, porque o trabalho manual, o esforço cotidiano e o corpo que sustenta a sobrevivência são vistos como ruído, não como potência. E não suporta ver quem atravessa o espelho, porque atravessar o espelho é romper com o destino social, é desafiar a imagem fixa que o país tem de si mesmo.

Raquel, ao subir e depois ser empurrada de volta à praia, simboliza o que o Brasil ainda não suporta encarar: que há desejo, força e dignidade nos corpos que insistem em existir fora do reflexo imposto.

Comentários

Postagens mais visitadas