O quarto, o cigarro e o eco do abandono:


por Cláudia Freire

Há histórias que se repetem sem anunciar seu retorno. São como quartos fechados onde o ar pesa e o corpo, inquieto, tenta adivinhar o que se passa do outro lado da porta.

O cheiro do cigarro, o ruído abafado, o silêncio de quem não responde: tudo isso compõe o cenário de uma ausência antiga.

O sujeito que espera, do lado de fora, conhece de cor o som da distância.

Freud chamou de Hilflosigkeit o desamparo inaugural, essa experiência em que o bebê depende de um outro que o sustente — no olhar, no gesto, no cheiro. Quando esse outro falha, algo se rompe. O mundo segue, mas o ar nunca mais entra do mesmo modo.

Desde então, amar torna-se uma forma de vigiar o abandono.

O amor, nesses casos, não é entrega: é sobrevivência. É o esforço de manter o outro perto o suficiente para que não desapareça. E quando o amor é vivido como vigília, o corpo envelhece antes do tempo. A mãe que observa o filho trancado, o marido que fala com desdém, o olhar que rebaixa — todos são personagens de uma mesma cena primitiva, que insiste em se repetir até que encontre outra linguagem.

Ferenczi dizia que o trauma é o excesso de solidão diante da dor.

Não há ninguém para testemunhar.

E quando ninguém escuta, o sujeito começa a falar com o vazio — até descobrir que pode transformar o vazio em escrita.

A escrita é o modo mais silencioso de ser ouvido.

Winnicott acreditava que, para existir, é preciso haver um “ambiente suficientemente bom”. Mas e quando o ambiente não houve? Quando a mãe estava ali, mas o olhar não estava?

O sujeito então aprende a fabricar o próprio ambiente: uma escuta, um quarto simbólico, um modo de narrar o que nunca foi ouvido.

Escrever pode ser isso — o gesto tardio de criar um colo para si.

O cansaço, que chega aos cinquenta e tantos anos, não é apenas biológico. É o esgotamento de quem carregou mundos demais.

E mesmo assim, entre o cheiro do cigarro e a roupa que não pode ser estendida, algo ainda resiste.

Um amor que não desiste, uma filha que devolve amor, uma voz que insiste em compreender.

O desejo talvez não tenha morrido: apenas mudou de respiração.

A análise, no fim, é a arte de reaprender a respirar.

De suportar o que ficou sem ar, e de nomear o que sempre esteve em silêncio.

O que se encontra ali, entre o quarto e o papel, não é redenção: é a chance de existir com um pouco mais de cuidado

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