Pão de Guerra
O livro Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial, de Roney Cytrynowicz, propõe uma leitura singular sobre o impacto da Segunda Guerra Mundial no Brasil, especialmente na cidade de São Paulo. A originalidade de sua abordagem não reside apenas na temática — já explorada sob diversos ângulos por historiadores interessados no Estado Novo —, mas na escolha do olhar: o cotidiano. Cytrynowicz volta-se para a experiência ordinária, para a textura da vida social submetida à lógica da guerra, mostrando que mesmo quando não há combates, há mobilização, controle, medo, silêncio e resistência. A guerra, portanto, não é apenas um evento distante, mas um modo de organização da vida.
Ao recuperar as práticas e representações do período, o autor desmonta a ideia de que a Segunda Guerra teria passado ao largo do Brasil, restrita a um conflito europeu ou às frentes militares onde atuou a Força Expedicionária Brasileira. Em Guerra sem guerra, o campo de batalha se desloca para o espaço urbano e simbólico: a guerra se infiltra nas políticas econômicas, nas relações de vizinhança, na propaganda oficial e até na subjetividade dos cidadãos paulistanos. O que o livro realiza, portanto, é um movimento de deslocamento epistemológico — ele desmilitariza o olhar sobre a guerra para historicizá-la como experiência social e psicológica.
A partir de uma vasta documentação — que inclui jornais, diários, cartazes, canções e arquivos institucionais —, Cytrynowicz compõe uma espécie de arqueologia da mobilização. O termo “mobilização”, aliás, é central em sua análise: não designa apenas a convocação militar, mas a reorganização de toda a vida civil em torno de uma retórica de sacrifício, vigilância e patriotismo. Em São Paulo, essa mobilização se materializa em campanhas de arrecadação, racionamento, controle de preços e censura. O autor demonstra como o Estado Novo, sob Getúlio Vargas, utilizou o discurso da guerra para ampliar o poder estatal e justificar a repressão política — transformando a “guerra dos outros” em instrumento de controle interno.
Mas o mérito de Guerra sem guerra não está apenas em denunciar a manipulação do contexto internacional pelo governo brasileiro; está, sobretudo, em revelar as micro-resistências, as ambiguidades e as táticas cotidianas da população diante desse regime de mobilização permanente. Ao contrário de uma história que se concentra nas grandes decisões políticas, Cytrynowicz dá voz às pessoas comuns, mostrando como o humor, a ironia e até o silêncio podiam funcionar como formas de resistência simbólica. Nessa perspectiva, o cotidiano se torna um campo de forças, onde o poder é exercido, negociado e subvertido em pequenas escalas.
Um dos aspectos mais ricos da obra é o diálogo implícito com a teoria da memória. Ao reconstruir um período que ficou à margem da narrativa heroica da guerra, o autor questiona o próprio modo como a história é contada e lembrada. A ideia de “guerra sem guerra” adquire, assim, um segundo sentido: não apenas o de uma guerra sem batalhas, mas o de uma memória sem narrativa, uma lembrança difusa que nunca chegou a se constituir plenamente. São Paulo, metrópole em expansão, vivia sob os efeitos da guerra, mas sem um mito fundador que a inscrevesse nesse drama mundial. A ausência de combates foi, paradoxalmente, a condição de uma guerra simbólica mais profunda: a do esquecimento.
Essa operação de resgate não é neutra. Ela faz eco às discussões contemporâneas sobre as formas de controle social e a fabricação de consenso. Cytrynowicz mostra como o Estado Novo construiu uma pedagogia do medo e da adesão, baseada em discursos de moralidade, trabalho e patriotismo. A guerra, nesse contexto, funciona como espelho e metáfora de uma sociedade em disciplinamento. O medo do inimigo externo converte-se em vigilância interna; o racionamento alimentício torna-se modelo de austeridade moral; a propaganda nacionalista substitui a política pelo espetáculo da unidade. Assim, Guerra sem guerra antecipa reflexões sobre o biopoder e o controle das populações, aproximando-se, mesmo sem o declarar, de leituras foucaultianas.
Ao mesmo tempo, o livro dialoga com uma tradição historiográfica que valoriza a experiência subjetiva e a história das sensibilidades. O olhar do autor é atento às emoções coletivas — ansiedade, suspeita, esperança — que atravessam o período. Ele não descreve apenas políticas públicas, mas atmosferas sociais. Nesse sentido, a obra tem um valor quase etnográfico: é um retrato de uma cidade em suspensão, entre o medo e a rotina, entre o trabalho e a escassez, entre a propaganda e a incredulidade. São Paulo, aqui, é o laboratório de uma guerra psíquica, onde o inimigo é invisível e a linha de frente é a vida cotidiana.
Em termos teóricos, Cytrynowicz também questiona a noção clássica de “participação nacional” na guerra. Ao propor que o Brasil viveu uma “mobilização sem guerra”, ele desmonta a lógica binária entre centro e periferia, entre combatentes e civis. A guerra, ao atravessar as fronteiras da economia e da cultura, deixa de ser um fenômeno exclusivamente militar e torna-se um modo de governo. Por isso, o livro pode ser lido como uma crítica à própria categoria de “neutralidade” histórica: o Brasil pode não ter sido o campo de batalha, mas foi campo de mobilização e, portanto, parte integrante da economia mundial da guerra.
A leitura de Guerra sem guerra é, em última instância, um convite a repensar o papel da história como reconstrução da experiência e não apenas como relato de eventos. A guerra, aqui, não é um fato, mas uma estrutura de sensibilidade. O autor mostra que os conflitos do século XX ultrapassam as trincheiras e se inscrevem nas práticas mais íntimas: o consumo, o medo, o riso, o gesto de escrever. Ao dar voz a esses vestígios, Roney Cytrynowicz realiza uma historiografia do sensível — uma história que ouve o que ficou submerso na narrativa oficial.
Em síntese:
A estrutura da primeira edição é tripartida — mobilização, cotidiano e memória —, o que já espelha o próprio método do autor: um movimento que vai do macro ao micro, e do presente vivido à lembrança apagada.
Ele escreve com uma linguagem clara, quase literária, o que faz o livro circular tanto entre historiadores quanto entre leitores interessados na psicologia social da guerra.
Orientadora: Marina Maluf - Tema do semestre :
Guelras de Foulcaut: aquilo que respira dentro daquilo que aprisiona.
Bibliografia
CYTRYNOWICZ, Roney. Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Geração Editorial / EdUSP, 2000.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1977.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. Petrópolis: Vozes, 1994.
LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Ed. da Unicamp, 1990.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1987.
Fontes primárias- Arquivo do Estado de São Paulo : Na introdução, ele delimita o objeto, o recorte temporal (1939–1945) e as fontes: jornais, panfletos, relatórios oficiais, correspondência, depoimentos orais e material de propaganda.
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