A loucura da sapiência e a louca da casa

Um ensaio sobre o delírio de saber e o medo do limite
por Cláudia Freire
Há uma forma de loucura que se mascara de lucidez. É a loucura da sapiência — aquela em que o sujeito se identifica completamente com o próprio saber, acreditando que o mundo cabe dentro daquilo que ele enuncia. Nessa posição, o saber não é meio de escuta, mas instrumento de domínio. Tudo o que é dito serve para confirmar a própria autoridade; nada é devolvido ao campo da dúvida.
Christian Dunker, em uma de suas conferências, fala da louca da casa: essa parte do sujeito que vive a partir da fantasia, e fantasia, e fantasia, sem jamais encontrar o ponto de basta. Essa fantasia infinita é uma forma de gozo. É o que mantém o sujeito colado à própria imagem, impedindo-o de reconhecer o limite. A louca da casa cria mundos, mas não escuta nenhum. E o saber que se acredita absoluto é da mesma natureza: uma fantasia que não se sabe fantasia.
Na loucura da sapiência, o discurso se transforma em encantamento. A palavra, em vez de abrir sentido, o fecha. O sujeito se torna o sacerdote do próprio saber, seja ele científico, religioso ou espiritual. Quando isso acontece, o sagrado é instrumentalizado; o conhecimento, estetizado; e a alteridade, abolida. Falar deixa de ser encontro — passa a ser exibição. É uma cena onde o saber não circula: ele se impõe.
O saber, quando se absolutiza, enlouquece. É o que Freud chamou de retorno do recalcado: aquilo que é reprimido — o não-saber, o limite, o erro — retorna de forma invertida, como certeza delirante. A louca da sapiência é, então, uma figura trágica: vive sustentada pela ilusão de que domina o sentido, quando na verdade é dominada por ele.
A psicanálise ensina que o saber verdadeiro nasce do furo, não da completude. O sujeito só pensa porque não sabe tudo; só fala porque algo lhe escapa. O vazio é o motor da criação. Aquele que não suporta o vazio transforma o saber em defesa, e a palavra em fortaleza. Por isso, o louco do saber é o que perdeu o silêncio — e, com ele, a possibilidade de se transformar.
Nietzsche intuiu isso ao dizer que “o sábio é aquele que duvida de sua própria sabedoria”.
Lacan radicalizou: o saber é efeito do desejo, não de posse.
Dunker, por sua vez, atualiza o mito — mostrando que a fantasia sem limite é o verdadeiro delírio contemporâneo.
A loucura da sapiência e a louca da casa são, afinal, duas faces do mesmo espelho: uma acredita saber demais, a outra imagina demais. Ambas fogem do limite, e é justamente nesse limite que o saber, a fantasia e o outro podem ser visto e escutado.
imagem: IA.
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