Quando o significante fere e costura - ensaio sobre as esquizofrenias reunidas:


por Cláudia Freire

      Não é apenas o corpo que anda: é o pensamento tentando encontrar um lugar para pousar. 

Vivemos um tempo em que o chão simbólico frequentemente se desfaz. O sujeito moderno, pressionado pelas demandas do desempenho e do consumo, parece flutuar entre o excesso de estímulos e a falta de sentido. As referências que sustentavam a vida — trabalho, família, fé, amor — já não oferecem garantias. Nesse cenário, o que chamamos de psicose não surge apenas como patologia, mas como sintoma de um mundo desamarrado, em que a linguagem já não contém o real. A esquizofrenia, especialmente, desponta como o retrato extremo de um tempo em que todos estamos, de algum modo, com os pés fora do chão.

Receber o diagnóstico de esquizofrenia é ser nomeado por um significante que tanto fere quanto costura. Ele fere porque marca, delimita, separa. Fere o sujeito ao inseri-lo em um discurso médico, jurídico, social que o define e o vigia. Mas o mesmo nome pode também costurar: dá forma à experiência, permite um tratamento, abre uma via de reconhecimento. O diagnóstico é, ao mesmo tempo, uma sentença e uma possibilidade.

Em Esquizofrenias Reunidas, a escritora norte-americana Esmé Weijun Wang descreve esse duplo movimento com uma lucidez rara. Ao narrar suas crises, internações e remissões, ela revela como o diagnóstico lhe trouxe um alívio paradoxal: finalmente havia um nome para o caos. Mas esse mesmo nome passou a determinar como os outros a viam — não mais como pessoa, mas como portadora de uma doença. Em suas palavras, o diagnóstico pode ser um abrigo e uma prisão.

O olhar do outro pesa. A pessoa diagnosticada passa a ser lida por filtros invisíveis: pela família que se torna vigilante, pelos amigos que se afastam, pelos médicos que observam, pelo sistema que regula sua presença nos espaços públicos. O nome, que deveria abrir caminhos, pode estreitar o campo de existência. O sujeito passa a existir entre papéis e protocolos — e às vezes desaparece sob eles.

Mas há também aqueles que respiram quando o significante chega. Nomear o que se vive é um modo de reduzir o desamparo. O sujeito pode, então, reorganizar o corpo, o pensamento, a vida. Outros, porém, sentem o colapso porque o nome desvela uma verdade insuportável: “E agora, com esse desmantelamento, como posso continuar?”

Essa pergunta, que parece uma ruína, é também uma brecha. É por meio dela que o sujeito pode criar um outro modo de estar no mundo, não mais pelo modelo capitalista do rendimento, mas pelo desejo de produzir algo que tenha valor simbólico. Produzir para existir, e não existir para produzir. Escrever, bordar, pintar, cantar, escutar — criar uma forma que dê corpo ao que de outro modo se despedaçaria.

Nas clínicas e nas ruas, é possível ver sujeitos que andam em círculos, presos a um pequeno quintal, repetindo o mesmo trajeto. Não é apenas o corpo que anda: é o pensamento tentando encontrar um lugar para pousar. Talvez o que falte a esses corpos não seja espaço físico, mas um espaço simbólico — um ponto onde possam se inscrever. A escrita foi esse ponto para Esmé Weijun Wang. Para outros, é a arte, a fé, o tricô e tal. O que importa é que haja um canto no mundo que lhes permita não apenas viver, mas existir com algum grau de invenção.

O sujeito esquizofrênico carrega uma potência que o mundo tenta silenciar: a de ver além das bordas, de ouvir o que ainda não tem nome, de desmontar a lógica unívoca da realidade. Sua maneira de estar fora é também uma maneira de revelar o quanto o dentro está doente. Há, na psicose, uma sabedoria trágica: ela mostra que o sentido é sempre frágil e que a linguagem pode se romper.

Como lembra Contardo Calligaris em A Clínica das Psicoses, a tarefa do analista não é normalizar o sujeito, mas sustentá-lo na invenção de um modo próprio de amarração simbólica. É oferecer escuta ao que não se encaixa, ao que se extravia, ao que não quer se calar. A cura, se é que se pode chamar assim, não está na adaptação, mas na criação.

A esquizofrenia, afinal, é uma ferida aberta na linguagem — mas é também uma passagem. O sujeito pode aprender a falar a partir dessa fenda, transformando o despedaçamento em escrita, em ato, em dança, em poema... A catástrofe não precisa ser o fim: pode ser o começo de uma forma nova de presença.

O desafio, talvez, seja aceitar que nem todos os pés precisam tocar o chão da mesma maneira. Alguns caminham flutuando, outros tateiam, outros dançam. O importante é que cada um encontre o seu modo de costurar o mundo, mesmo que o ponto não feche, mesmo que o tecido se desfaça de novo.


Bibliografia

WANG, Esmé Weijun. Esquizofrenias Reunidas: Ensaios. São Paulo: Editora Todavia, 2020.

CALLIGARIS, Contardo. A Clínica das Psicoses. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.

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