Walter Benjamim e seus estudos sobre o haxixe:
“Ao sorrir, sentimos crescer em nós pequenas asas”. Walter Benjamim.”
Walter Benjamin não se aproxima do haxixe como curiosidade exótica nem como defesa do uso de substâncias. Sua investigação é outra: trata-se de experimentar um modo específico de experiência. Entre 1927 e 1934, em sessões registradas em textos como Sobre o haxixe (Über Haschisch), Benjamin submete-se à substância em condições controladas, quase laboratoriais, atento às variações da percepção, às alterações do tempo, da linguagem e do pensamento. O que o interessa não é o prazer, mas a transformação da experiência.
Sob o haxixe, Benjamin descreve um deslocamento radical da relação com o mundo. Os objetos perdem a função utilitária e ganham densidade sensível. Uma cadeira deixa de ser algo “para sentar” e passa a existir como campo de formas, texturas, histórias possíveis. O cotidiano se torna estranho; o familiar se desarranja. Não há revelação mística nem acesso a um outro mundo, mas uma desfuncionalização do real. O haxixe não cria uma realidade paralela: ele suspende, por instantes, a lógica produtiva e instrumental que governa este mundo.
Essa suspensão se manifesta de modo decisivo na experiência do tempo. O tempo deixa de ser linear, mensurável e progressivo. Ele se dilata, se espessa, se dobra. Minutos se transformam em longos corredores de associações. Essa alteração interessa profundamente a Benjamin porque toca um de seus temas centrais: a crítica ao tempo homogêneo e vazio da modernidade capitalista. Sob o haxixe, o tempo não avança; ele se acumula.
Há também um efeito marcante sobre a linguagem. As palavras tornam-se mais sensíveis, mais materiais. Benjamin não fala de facilidade de expressão, mas de excesso: as palavras pesam, brilham, se multiplicam em sentidos. Em certos momentos, a linguagem falha — e essa falha não é déficit, mas excesso de significação. Algo próximo do que ele nomeia, em outros textos, como aura: uma presença que não se esgota na função.
Benjamin, porém, é rigoroso. Ele não idealiza essa experiência nem a transforma em via de conhecimento estável. A revelação produzida pelo haxixe tem um limite estrutural: ela não se sustenta no tempo, não se transforma em forma de vida, não produz continuidade. Trata-se de uma experiência dependente de condições muito específicas, que se desfaz assim que essas condições cessam. É justamente por isso que Benjamin se recusa a convertê-la em programa, método ou promessa. O haxixe não oferece um caminho a seguir nem uma solução para o empobrecimento da experiência moderna; ele funciona como um desvio momentâneo, capaz de tornar visível, por contraste, aquilo que a lógica produtiva apagou do cotidiano.
Nesse sentido, o haxixe ocupa na obra de Benjamin um lugar lateral, mas coerente. Ele se articula às suas reflexões sobre a infância, o flâneur, o colecionador, o jogador — modos de relação com o mundo que suspendem o “para quê” e permitem que as coisas existam antes de servir. O haxixe mostra algo que a modernidade retirou do cotidiano: a capacidade de habitar a experiência, e não apenas atravessá-la.
Essa experiência, no entanto, passa. E é precisamente por isso que Benjamin não a transforma em programa. O haxixe não salva, não funda, não institui. Ele indica, desloca, aponta — e se retira. Como em grande parte de sua obra, trata-se menos de oferecer uma solução do que de realizar um gesto crítico: mostrar, ainda que por instantes, que o mundo poderia ser experimentado de outro modo e que a pobreza da experiência moderna não é natural, mas histórica.
Walter Benjamin, o haxixe e a clínica
A aproximação entre Walter Benjamin e a clínica não passa pelo uso da substância, mas pelo gesto que o haxixe torna visível. O que está em jogo é uma modificação da posição do sujeito diante da experiência — algo que a clínica, por outra via, também busca produzir.
Sob o haxixe, Benjamin descreve uma suspensão da finalidade. As coisas deixam de responder à pergunta “para que servem?” e passam a existir antes de servir. Esse deslocamento interessa diretamente à clínica, porque o sofrimento psíquico moderno costuma estar colado à função, à adaptação, ao desempenho, à resposta correta. O sujeito chega muitas vezes tomado por um excesso de finalidade: trabalha, organiza, responde, cumpre — mas não vive.
Na clínica, algo análogo ocorre quando a fala deixa de ser instrumental. Quando o analisando não fala mais para informar, justificar ou concluir, mas começa a habitar a própria fala. Não se trata de dizer melhor, mas de dizer sem saber exatamente para onde se vai. É aí que a associação se produz.
O haxixe, em Benjamin, não cria associações mais profundas; cria associações menos vigiadas. O pensamento abandona a linha reta, perde o controle narrativo, deixa-se contaminar por imagens, detalhes mínimos, objetos aparentemente irrelevantes. Algo próximo do que Freud descreve como atenção flutuante — não como técnica rígida, mas como posição ética diante do que emerge.
Outro ponto de contato está na experiência do tempo. Sob o haxixe, o tempo se espessa. Na clínica, o tempo também não é o do relógio. Uma sessão pode durar quarenta e cinco minutos e conter décadas; ou atravessar uma hora inteira sem que nada “aconteça”, e ainda assim algo pode se inscrever. A clínica opera fora do tempo homogêneo e produtivo — precisamente aquele que Benjamin critica como empobrecedor da experiência.
Há ainda a questão da linguagem. Benjamin percebe que as palavras, sob o haxixe, ganham materialidade. Elas deixam de servir apenas para designar e passam a ressoar, a insistir, a produzir efeitos. Na clínica, quando um significante retorna, tropeça ou se repete, ele também deixa de ser mera comunicação. Torna-se acontecimento. Não importa apenas o que a palavra quer dizer, mas o que ela faz ao sujeito quando aparece.
Benjamin jamais confunde essa experiência com um caminho terapêutico. O haxixe não cura, não sustenta, não organiza. Ele revela, de modo precário, aquilo que a clínica tenta sustentar sem substância alguma: a possibilidade de um sujeito não totalmente capturado pela lógica da utilidade.
Enquanto o haxixe suspende provisoriamente a lógica da produção, a clínica tenta criar, sessão após sessão, um espaço onde essa lógica não reine. Um espaço onde não é preciso chegar a lugar nenhum. Onde falar não serve para melhorar, corrigir ou otimizar, mas para permitir que algo se desloque.
Benjamin sabe que o haxixe passa. A clínica aposta no contrário: na repetição, no retorno, no trabalho lento que transforma o instante em experiência transmissível. Se o haxixe indica um mundo possível por alguns minutos, a clínica tenta sustentar esse modo de estar no mundo sem atalhos químicos — apenas com palavra, tempo e escuta.
Bibliografia
BENJAMIN, Walter. Sobre o haxixe e outras drogas. Tradução de João Barrento. Lisboa: Relógio d’Água, 2013.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994.
BENJAMIN, Walter. Rua de mão única e Infância berlinense: 1900. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho e José Carlos Martins Barbosa. São Paulo: Brasiliense, 1987.
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