Esse jeito Gogol de gostar,


Cláudia Freire


O porquinho era gordinho demais para a própria tranquilidade. Não se tratava apenas de gordura visível — havia nele um volume geral, uma sensação de excesso que parecia ocupar mais espaço do que o permitido. Por isso mesmo, vivia em constante estado de alerta. Sempre que alguém mencionava a palavra “amanhã”, ele estremecia.


Tinha medo da morte, o que não seria estranho, não fosse o fato de pensar nela com mais frequência do que pensava na comida — embora continuasse comendo sem interrupção, como se cada refeição fosse, ao mesmo tempo, despedida e defesa.


A vaquinha, por sua vez, era magra de um modo distraído. Não porque lhe faltassem as gramíneas, que cresciam em abundância, mas porque estava sempre ocupada demais namorando. Namorava com entusiasmo, com atraso, com esquecimento. Às vezes, passava tanto tempo inclinada em conversas amorosas que, quando se dava conta, já era noite e ela não tinha mastigado nada.


Encontraram-se por acaso, como quase tudo o que dá errado. O porquinho desconfiou imediatamente. A vaquinha achou graça. Ele pensou que aquele encontro podia ser o fim. Ela pensou que talvez fosse só mais um namoro — embora, curiosamente, tenha parado de falar por alguns instantes, coisa que nunca lhe acontecia.


O porquinho passou o resto do dia observando a vaquinha à distância. Não porque estivesse interessado, mas porque lhe parecia prudente. Havia algo nela que contrariava a ordem habitual das coisas: era excessivamente leve para alguém de tamanho razoável e excessivamente distraída para alguém que dependia da própria atenção para continuar viva.


Pensou, com certo desconforto, que criaturas assim costumavam sobreviver mais do que o esperado, o que lhe parecia profundamente injusto.


A vaquinha, por sua vez, demorou a notar o porquinho. Estava envolvida numa conversa longa demais com ninguém em particular — falava sozinha, como quem ensaia um namoro futuro. Quando finalmente o viu, achou-o simpático, sobretudo por parecer tão concentrado em existir.


— Você sempre fica aí parado? — perguntou, com curiosidade sincera.


O porquinho não respondeu de imediato. Precisou avaliar se a pergunta continha alguma ameaça implícita. “Aí parado” podia significar muitas coisas. Costume. Acusação. Despedida. Optou pelo silêncio, que lhe pareceu mais seguro.


Esse silêncio, entretanto, teve um efeito inesperado.


A vaquinha interpretou-o como profundidade.


Passou a visitá-lo com frequência, sentando-se a uma distância respeitosa — não por respeito, mas porque frequentemente esquecia de se aproximar. Falava sobre seus namoros passados, presentes e, sobretudo, futuros. Falava com tamanha dedicação que, enquanto falava, deixava de mastigar. O porquinho observava isso com crescente inquietação.


Era impossível compreender como alguém podia falar tanto e comer tão pouco.


Certa manhã, percebeu que não pensara na morte por quase uma hora inteira. O fato o alarmou profundamente. Passou o resto do dia tentando compensar essa negligência, imaginando cenários possíveis, improváveis e absolutamente descabidos. Ainda assim, havia algo diferente: as imagens não se fixavam como antes. Escapavam-lhe.


A vaquinha notou apenas que ele parecia mais calado do que o normal — o que, em se tratando dele, era difícil de medir.


— Você devia namorar — disse ela, como quem dá um conselho administrativo. — Distrai.


O porquinho engasgou levemente. Namorar lhe pareceu uma atividade arriscada, cheia de implicações imprevisíveis e, sobretudo, difícil de interromper no momento certo.


Mas não disse nada.


E foi assim que, sem declaração alguma, sem decisão consciente e sem perceberem direito o que faziam, passaram a ocupar o mesmo espaço do dia. Não exatamente juntos — isso seria exagero —, mas próximos o suficiente para que cada um começasse a atrapalhar discretamente o modo habitual de o outro existir.


Por enquanto, isso era tudo.


Se alguém perguntasse ao porquinho quando exatamente aquilo tinha começado, ele não saberia responder. Não houve início claro, nem decisão. O que houve foi um hábito estranho: a vaquinha passou a estar ali. E, mais estranho ainda, passou a estar ali sem exigir nada.


No começo, isso lhe pareceu suspeito.


Estava acostumado a perigos evidentes: facas, barulhos, mudanças de rotina. Mas aquela presença constante, despretensiosa, que não anunciava consequência alguma, o deixava inquieto. Amor, se fosse isso, deveria dar mais trabalho.


A vaquinha, por sua vez, não pensava em amor. Pensava em continuidade. Achava curioso que alguém pudesse escutar tanto sem interromper. Com o tempo, passou a escolher o lugar onde se deitava de modo que pudesse vê-lo melhor — não porque quisesse vê-lo, mas porque, ao vê-lo, falava com mais clareza.


Assim se formou o primeiro laço: um uso mútuo do silêncio.


Depois veio a intimidade, embora ninguém a tivesse convidado formalmente. Ela chegou como chegam as coisas inconvenientes: quando já estão instaladas. A vaquinha passou a comentar pequenos detalhes do dia do porquinho — o modo como ele respirava, o horário em que se mexia, o fato de comer sempre como se estivesse se despedindo. O porquinho, em troca, começou a reconhecer nela variações mínimas: quando falava mais, quando esquecia completamente do mundo, quando mastigava com certa culpa.


Essa troca de observações não os tornou mais sábios, mas mais implicados.


A aproximação corporal aconteceu sem planejamento. Num dia frio demais para explicações, a vaquinha se encostou nele por distração. O porquinho congelou. Pensou em afastar-se, mas percebeu que isso exigiria movimento — e movimento sempre lhe parecera perigoso. Ficou onde estava.


Nada de extraordinário aconteceu.


E foi isso que o perturbou.


O corpo do outro não trouxe anúncio algum. Não trouxe fim. Não trouxe alarme. Apenas peso — um peso diferente do seu, menos preocupado em existir. A vaquinha, por sua vez, percebeu que aquele corpo gordinho, tão atento a si mesmo, oferecia uma superfície estranhamente estável. Encostou-se mais um pouco, por economia de esforço.


Se aquilo era amor, pensou o porquinho, era decepcionantemente silencioso.


Ainda assim, algo se organizava ali. Não uma promessa, não um futuro, mas uma pequena alteração no modo de cada um ocupar o espaço. O porquinho passou a temer menos o instante seguinte quando ela estava perto. A vaquinha passou a esquecer menos o próprio corpo quando ele não se afastava.


Amar, naquele caso, não significou mudar.

Significou não precisar se proteger o tempo todo.


E isso, para ambos, já era excessivo.

Não é que o amor tivesse sido grande demais.

É que o alívio foi grande demais.


Para o porquinho, viver sempre fora sinônimo de vigilância. Existia como quem guarda um portão que nunca fecha. Não precisar se proteger o tempo todo era quase uma ameaça à própria identidade. Se baixasse a guarda, quem ele passaria a ser?


Para a vaquinha, viver sempre fora dispersar-se. Amar demais, falar demais, esquecer-se de comer. Não precisar fugir de si mesma, não precisar se perder no outro, era igualmente excessivo. Se ela ficasse, se repousasse, o que aconteceria com esse desejo sempre em movimento?


Então o excesso não era o amor.

O excesso era a suspensão do mecanismo de sobrevivência.


Depois desse entendimento silencioso — que nenhum dos dois formulou, é claro — surgiu um leve desconforto. Não uma briga, não um conflito, mas aquela sensação incômoda de quando algo começa a funcionar sem pedir licença.


O porquinho passou a desconfiar da própria tranquilidade. Às vezes acordava no meio da noite só para verificar se o medo ainda estava lá. Ficava aliviado ao encontrá-lo, ainda que enfraquecido, como um velho conhecido que já não impunha tanto respeito.


A vaquinha, por sua vez, começou a comer um pouco mais. Não por decisão, mas porque, ao falar menos, sobrava tempo para mastigar. Isso a deixou estranhamente inquieta. Comer sempre lhe parecera uma atividade secundária, quase vulgar. Agora, mastigava como quem comete uma infração discreta.


Houve dias em que ela se afastou de propósito, indo namorar alguém que mal lembrava seu nome. Voltava cansada, com aquela magreza antiga, e se deitava perto do porquinho sem dizer nada. Ele não perguntava. Percebera que perguntar costuma desfazer coisas que ainda estão se organizando.


Assim, o amor foi se construindo por interrupções.


Eles não avançavam em linha reta. Aproximavam-se, recuavam, encostavam-se, distraíam-se. Às vezes passavam horas juntos sem que nada acontecesse; em outras, um simples roçar de corpo parecia exigir um longo período de recuperação individual.


Se alguém observasse de fora, talvez dissesse que aquilo não era amor de verdade. Faltavam gestos grandiosos, declarações, promessas. Mas o que havia ali — e isso ninguém notava — era algo mais embaraçoso: uma tolerância mútua ao desamparo do outro.


O porquinho tolerava que a vaquinha se esquecesse de tudo.

A vaquinha tolerava que o porquinho se lembrasse demais.


E isso, aos poucos, foi criando uma intimidade que não se apoiava nem na fusão nem na distância, mas numa espécie de convivência imperfeita, constantemente ameaçada — e justamente por isso, mantida.


Talvez amar fosse isso:

não melhorar ninguém,

não salvar ninguém,

apenas ficar um pouco mais do que o necessário.


Foi então que surgiu outra vaquinha.


Não surgiu de modo oficial. Não houve anúncio nem comparação direta. Simplesmente apareceu num canto do campo, como aparecem certas ideias inoportunas: já instaladas, sem pedir licença. Não era mais jovem  nem mais velha — o que também explicaria alguma coisa. Era, sobretudo, mais atenta.


Mastigava enquanto observava. Observava enquanto mastigava. Esse equilíbrio despertou no porquinho uma inquietação imediata. Passou a vigiar a vaquinha que amava com mais cuidado do que nunca. Notou que, ao falar com a recém-chegada, ela não se distraía tanto. Falava menos. Ria menos.


Concluiu, com a lógica que lhe era própria, que aquela outra vaquinha devia ser mais inteligente. Afinal, conseguia fazer duas coisas ao mesmo tempo — algo que ele sempre considerara sinal claro de superioridade ou de perigo.


Não disse nada.


A vaquinha amada percebeu apenas que o porquinho estava mais silencioso do que o habitual — um silêncio diferente, mais compacto. Achou que fosse medo da morte outra vez e, por consideração, passou a falar menos ainda. Esse cuidado só agravou a situação.


O porquinho interpretou o novo silêncio como reserva emocional.


Começou então a ensaiar despedidas internas. Não despedidas práticas, mas despedidas imaginadas, nas quais sofria com moderação e dignidade. Havia nisso certa satisfação melancólica, como a de quem se prepara para uma perda que talvez nunca aconteça, mas que já exige respeito.


A outra vaquinha, alheia a tudo isso, limitava-se a existir com eficiência. Não competia. Não seduzia. Apenas estava ali, mastigando corretamente, o que, aos olhos do porquinho, foi se transformando numa provocação intolerável.


Certa tarde, decidiu afastar-se um pouco. Não muito — afastamentos bruscos são perigosos —, apenas o suficiente para que sua ausência pudesse ser notada, caso alguém fosse atento o bastante para isso.


Ninguém notou.


A vaquinha amada continuou falando sozinha, como sempre fizera. A outra vaquinha continuou mastigando. O mundo seguiu com uma indiferença quase ofensiva.


Esse foi o momento mais difícil para o porquinho.


Percebeu que o amor, além de silencioso, era pouco vigilante. Não reagia imediatamente às suas estratégias. Não se apressava em confirmá-lo. Isso o deixou dividido entre dois impulsos contraditórios: proteger-se ainda mais ou aproximar-se de vez.


Escolheu o meio-termo — que, como sempre, não resolveu nada.


Ali não havia rivalidade nem ameaça real. Havia apenas o velho mal-entendido: confundir estabilidade com desinteresse e atenção com amor.


Mas ninguém disse nada.


E assim, por alguns dias, o amor deles quase se perdeu — não por excesso, não por falta, mas por um erro mínimo de interpretação, desses que passam despercebidos e, ainda assim, mudam tudo.


O porquinho levou algum tempo para perceber que aquilo que o incomodava não era a outra vaquinha. Essa conclusão demorou, porque sempre preferira causas externas — são mais fáceis de vigiar. Mas, numa manhã particularmente silenciosa, ocorreu-lhe algo desconfortável.


Ele estava com falta.


Não de comida.

Não de segurança.

Mas daquela presença específica que não exigia resposta imediata.


A constatação não veio clara. Veio como um incômodo corporal. Um peso diferente no peito, não tão urgente quanto o medo da morte, mas persistente demais para ser ignorado. Pela primeira vez, não pensou em como evitar um fim. Pensou em como chamar alguém.


Isso o deixou profundamente constrangido.


O porquinho nunca chamara ninguém. As coisas simplesmente aconteciam a ele, e ele reagia. Buscar o outro lhe pareceu um gesto ousado demais, quase indecente. Ainda assim, aproximou-se da vaquinha que amava com uma cautela inédita — não a cautela de quem se protege, mas a de quem não sabe como pedir.


— Você… — começou, e parou.


A vaquinha virou-se com atenção. Não aquela atenção dispersa dos namoros, mas uma atenção inteira, que a fez esquecer de mastigar.


O porquinho percebeu então algo novo: o outro não estava ali apenas para ser suportado ou observado. Estava ali à espera, ainda que não soubesse exatamente do quê.


Isso mudou o modo como ele respirava.


Não explicou seu medo. Não falou da outra vaquinha. Não nomeou o amor — palavras grandes demais sempre lhe pareceram perigosas. Disse apenas:


— Quando você não está, eu penso mais.


A vaquinha achou aquilo curioso. Pensar sempre fora coisa dele. Mas entendeu, sem entender, que ali havia um pedido estranho: não de solução, mas de companhia.


Sentou-se mais perto.


Ele continuou com medo da morte. Isso não mudou.

Ela continuou namoradeira. Isso tampouco mudou.


Mas o porquinho aprendeu algo decisivo: que precisar do outro não é sinal de fraqueza, e sim de exposição. E exposição, embora arriscada, é diferente de ameaça.


A ameaça vem de fora.

A exposição vem do desejo.



         “amar também é aprender a pedir presença sem saber direito como.” 

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