Analisando ou paciente? Podemos escolher?

“Lacan não queria um substantivo identitário.
Ele queria marcar um lugar provisório, não um rótulo”. cf.
Há um momento decisivo na clínica: o momento em que se nomeia quem está ali. Antes da técnica, antes da interpretação, antes mesmo da escuta afinada. Nomear é um ato inaugural. E nenhum ato inaugural é neutro.
Quando um analista chama alguém de paciente, ele não está apenas usando um termo consagrado pelo hábito. Ele está oferecendo um lugar. E esse lugar já diz muito. Paciente vem de pati: aquele que padece, que sofre algo que lhe acontece. Um corpo atravessado por um mal. Um sujeito reduzido àquilo que o afeta. O nome já carrega uma hipótese silenciosa: aqui, algo acontece com ele, mas ele próprio não aparece.
É isso que me parece clinicamente mais delicado. Chamar alguém de paciente não apenas supõe sofrimento; supõe a ausência do sujeito. Supõe que o que está em jogo pode ser descrito, tratado, manejado sem que seja preciso esperar uma palavra que venha de dentro da experiência. O paciente é aquele de quem se fala; raramente aquele que fala.
Na psicanálise, isso não é um detalhe de vocabulário. É uma decisão ética. Porque a clínica analítica começa justamente quando se aposta que há sujeito — mesmo quando ele não aparece, mesmo quando ele está fragmentado, confuso, colapsado, silenciado. O analista não trabalha com a evidência do sujeito; trabalha com a aposta de que ele pode advir.
Chamar alguém de paciente é, portanto, mais do que inconveniente: é antecipar um diagnóstico. Não um diagnóstico nosográfico, mas um diagnóstico de posição subjetiva. É dizer, antes da fala, que ali há alguém tomado por algo, mas não implicado nisso. É organizar a cena clínica de modo que o sofrimento ocupe o centro e o sujeito fique à margem.
Por isso, a palavra analisando não é um preciosismo técnico. Ela marca outra coisa. Marca processo, trabalho, implicação. Marca que ali há alguém fazendo algo com o que lhe acontece, mesmo quando ainda não sabe o quê. O analisando não é definido pelo padecimento, mas pelo ato — ainda que mínimo — de falar.
O osso da clínica está aí. Não na interpretação brilhante, não na construção teórica sofisticada, mas nesse ponto duro onde uma palavra decide se o analista escuta um corpo que sofre ou um sujeito que pode emergir. Nomear é instituir um laço. E o laço que se institui quando se diz paciente não é o mesmo que se institui quando se diz analisando.
A psicanálise começa quando o analista sustenta, contra todas as evidências, que há alguém ali que pode responder por sua própria fala. Quando essa aposta é abandonada, o que resta pode ser cuidado, pode ser tratamento, pode ser boa intenção — mas já não é clínica psicanalítica.
cf.
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