3/01/26



   “Assim, é sempre um espermatozóide com absurda pretensão de não ser inferior a ninguém o primeirão, o que fecunda o óvulo e cria as pessoas que criam todos esses problemas para o governo e para os patrões.” 

Luís Fernando Ver!ssimo, o que deu errado?


A notícia que circulou — **Donald Trump teria ordenado uma ação direta contra a Venezuela, com sequestro de Nicolás Maduro e de sua esposa — aparece mais como sintoma do nosso tempo do que como fato estabilizado. Antes mesmo de ser confirmada ou negada, ela já produz efeitos: medo, indignação, torcida, cansaço. Vivemos num mundo em que o acontecimento já nasce como espetáculo, e o espetáculo antecede qualquer elaboração.


É nesse cenário que abro O Mundo é Bárbaro, o que nós temos a ver com isso?, de Luiz Fernando Veríssimo, e o gesto é preciso. Veríssimo faz algo muito sofisticado sob a aparência de humor: ele nos localiza. Não geograficamente apenas, mas simbolicamente. Brasil, América do Sul, hemisfério sul, Terra, Via Láctea… e, ao mesmo tempo, “no ocaso da civilização do carbono”. Essa enumeração irônica desmonta qualquer ilusão de centralidade.


Quando ele diz que somos “pós-hegelianos, pós-marxistas, pós-freudianos”, há aí um ponto psicanaliticamente interessante: somos sujeitos do depois, mas sem termos atravessado verdadeiramente o antes. Pulamos etapas. Passamos “do pastoral à sucata” sem o intervalo de uma indústria própria, isto é, sem a experiência simbólica de uma mediação histórica consistente. Isso vale para o Brasil — e vale, com outras marcas, para a América Latina como um todo.


A Venezuela entra aí como espelho incômodo. O que temos a ver com ela? Justamente aquilo que preferimos não ver: a repetição de uma história de dependência, captura e tutela. Ditaduras explícitas, ditaduras travestidas, governos encurralados pelo narcotráfico, pelo embargo, pela geopolítica das grandes potências. Sempre dominada — não apenas por fora, mas também por dentro, por estruturas que se reproduzem como destino.


Do ponto de vista psicanalítico, há algo da ordem da infantilização política da América Latina. Somos tratados — e muitas vezes nos comportamos — como quem precisa de um Outro que decida, intervenha, puna ou salve. Quando esse Outro aparece na figura de um Trump, ele não vem como pai simbólico, mas como pai perverso: aquele que goza do poder de intervir, humilhar, desestabilizar. A barbárie não está apenas no ato, mas no prazer que circula em torno dele.


E o Brasil? O que pode fazer? Ajudar? Calar? Ajudar como — e a partir de que lugar? Aqui entra a posição de Luiz Inácio Lula da Silva e sua equipe. Lula costuma apostar numa diplomacia do diálogo, da mediação, da não intervenção armada. Isso não é ingenuidade; é uma leitura histórica. O Brasil sabe — mesmo quando esquece — que qualquer gesto de alinhamento automático às potências do Norte cobra um preço alto depois. E sabe também que silenciar completamente diante de abusos produz outro tipo de cumplicidade.


Talvez o ponto não seja escolher entre “ajudar” ou “calar”, mas recusar o lugar do salvador e também o do espectador cínico. Sustentar uma posição latino-americana que reconheça os impasses internos da Venezuela sem entregá-la à lógica colonial da intervenção. Isso é politicamente difícil e simbolicamente frágil — mas talvez seja o único lugar ético possível.


Veríssimo, com sua frase aparentemente leve sobre sermos “pentacampeões” e termos celulares cada vez menores, toca num nervo: compensamos nossa precariedade estrutural com fetiches de grandeza e gadgets. Enquanto isso, a história segue nos atropelando. A barbárie não é um evento extraordinário; é o pano de fundo.


O que temos a ver com isso? Tudo. Porque cada vez que a América Latina é tratada como quintal, laboratório ou ameaça, algo do nosso próprio lugar no mundo é reafirmado. E cada vez que reagimos apenas com indignação passageira ou silêncio cansado, perdemos a chance de transformar repetição em experiência.


Cláudia Freire.


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VERISSIMO, Luiz Fernando Veríssimo. O mundo é bárbaro, e o que nós temos a ver com isso. Porto Alegre: L&PM, 2016.


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