Sobre o feminino que eu me autorizei a viver:

Fotografia com correção de luz. Arquivo Pessoal. Não é avatar.

Cláudia Freire


Escrevo este texto pensando na quantidade de mensagens que estou recebendo das mulheres.

Elas me escrevem dizendo que estão em busca de uma identidade, pois não tiveram espelho diante do qual pudessem se pentear.

Buscam algo que possam seguir. Um gesto que lhes mostre que é possível existir sem pedir desculpas.


Leio essas mensagens com alegria e com responsabilidade.


Porque demorou décadas para eu entender que o feminino que eu buscava não era exibicionismo.


Era expressão.

Era delicadeza escolhida.

Era a possibilidade de existir sem endurecer para sobreviver.


 Cresci entre mulheres que desconfiavam do feminino. Havia crítica no cuidado, ironia no prazer de se arrumar, julgamento na vaidade. Como se gostar da própria imagem fosse superficialidade. Como se firmeza e beleza não pudessem habitar o mesmo corpo.


Duas tias foram exceção. Elas gostavam do feminino como eu gosto. Cuidavam do cabelo, do perfume, da boca pintada — sem culpa. Ali eu aprendi que o feminino podia ser potência.


Depois da morte da minha mãe, meu corpo reagiu.


O peso veio como se eu estivesse tentando sustentar com gordura aquilo que não tinha mais colo. Como se a gordura fosse uma tentativa silenciosa de proteção.


Foi difícil entender a falta de um pai e de uma mãe — mesmo quando foram menos razoáveis do que deveriam. A ausência não deixa de marcar só porque houve atitudes inaceitáveis na vida de uma criança.


Hoje, quase entrando nos 60, eu mudei.


Estou perdendo peso e deixando de escutar a voz das mulheres que negaram o seu próprio feminino.


Agora a história é outra.


Comecei a cuidar da pele.

Do cabelo.

Das minhas palavras que sempre foram abundantes internamente. 


O feminino não nasce pronto. Ele é construído. Não é uma essência dada nem uma qualidade natural do corpo. Ele se constrói a partir da falta — esse espaço singular onde o sujeito aprende a se mover, a desejar e a inventar modos de existir. É nesse intervalo, aberto pela incompletude, que o feminino encontra sua forma, não como identidade fixa, mas como um modo particular de habitar o desejo e o mundo. 


O pensamento é força e delicadeza ao mesmo tempo.

Ele é firme sem ser violento.

Ele é elaborado.

Ele pensa antes de atacar.


Não acredito em movimentos movidos a ódio. Não acredito em discursos em que o semblante das pessoas traz rancor permanente. O ódio pode até mobilizar por um tempo, mas não constrói permanência.


O feminino que eu vivo é outro:

é o feminino que sustenta discurso pensado.

Que transforma sem destruir tudo ao redor.

Que ocupa espaço sem precisar desfigurar o outro.


Uma mulher que se autoriza a construir o próprio feminino abre espaço para outras.


E quando uma abre espaço, outras respiram.


cf.

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