A dança do fogo*


Imagem Pexel


Eu me lembro de quando comecei a estudar psicanálise e algo novo e maravilhoso se abriu para mim: o humano é contraditório. Não como falha, mas como condição. Há forças que não se conciliam, desejos que não se organizam, palavras que não se ajustam ao que se vive. E isso não era um problema — era, ao contrário, o ponto de partida.


A contradição precisava ser pensada, sustentada, atravessada.


Mas hoje, o que se vê é outra coisa. Não é mais a contradição que inquieta — é o excesso dela sem elaboração. São muitas, inúmeras, sobrepostas, circulando sem tempo de serem digeridas. E quando não há elaboração, não há cultura que dê conta.


O mundo segue falando, falando muito, e todos ao mesmo tempo. A saúde mental é o inferno de Dante.


E então surge uma urgência: nomear. Nomear tudo, rapidamente, antes que algo escape. Como se dar nome fosse o mesmo que compreender. Como se bastasse fixar uma palavra para que o mundo se organizasse.


Mas não é assim.


O nome não é apenas um som — ele é um lugar. E, mais ainda, um lugar de poder. Quem nomeia, ocupa. E quando esse nome é repetido pela cultura, quando ele circula, se fixa, se impõe — então ele se torna quase incontestável.


Só que estamos nomeando sem tempo de pensar.


As palavras estão sendo lançadas antes de ganharem corpo. E, por isso, começam a se esvaziar. Permanecem circulando — mulher, identidade, direito, liberdade — mas já não sustentam o mesmo peso. Já não organizam. Já não amarram.


E quando o simbólico falha, o conflito desce para o corpo.


Talvez seja por isso que as mulheres, mais uma vez, se veem nesse lugar incômodo, antigo e sempre atual; o lugar da exposição, da tensão, da disputa. Como se fossem constantemente chamadas a responder por aquilo que a cultura já não consegue sustentar.


Uma espécie de dança do fogo.


E não apenas imposta de fora. Às vezes também reproduzida entre mulheres. Porque quando o campo simbólico se fragiliza, não há posição estável. Tudo vira confronto, disputa de lugar, tentativa de garantir existência pela afirmação.


O que se perde aí é justamente aquilo que a psicanálise ensinava no começo: a possibilidade de sustentar a ambiguidade.


Hoje, parece que tudo precisa ser resolvido rápido demais. Definido, fixado, encerrado. Ou isto ou aquilo. Não há tempo para a dúvida, nem espaço para o pensamento que hesita.


Sustentar a contradição sem transformá-la imediatamente em posição. Permitir que a palavra amadureça antes de ser lançada. Dar tempo para que o sentido se construa, em vez de ser imposto.


Porque, sem isso, o risco não é apenas a confusão.


É o esvaziamento.


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* Ao ver a excelentíssima senhora deputada Erika Hilton no plenário, tomada por um tom que rompe com a escuta e com a possibilidade de diálogo, a minha desesperança se ampliou. Não se trata de discordância — que é constitutiva do espaço político —, mas da impressão de uma palavra que já não se oferece como construção, e sim como descarga. Há algo de vulcânico nessa fala: não a erupção que reorganiza a paisagem, mas o momento anterior, em que a pressão se acumula e a lava irrompe sem forma, avançando sobre tudo. Quando a palavra perde seu trabalho e se torna apenas força, ela já não funda cultura — apenas queima.

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