O silêncio, cf.

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Há silêncios que trabalham.
Na clínica psicanalítica aprendemos a reconhecê-los. Eles aparecem quando o sujeito se aproxima de algo que ainda não pode ser dito. O silêncio, nesse caso, não é ausência de palavra; é o tempo necessário para que algo da palavra se forme.
Mas há outros silêncios.
Lembrei-me de uma sessão longínqua. Nela, um silêncio diferente se instalava. Não era o silêncio da elaboração, nem o silêncio da angústia. Era um silêncio usado como instrumento.
O analisando permanecia calado diante das perguntas mais simples. Não se tratava de dificuldade em falar. Havia antes uma espécie de cálculo na recusa da palavra. O silêncio produzia um efeito claro na sessão: um mal-estar crescente.
A cada intervalo prolongado surgia em seu rosto um pequeno sorriso quase imperceptível acompanhado de um olhar que parecia vigiar o efeito produzido.
Ali algo do gozo se deixava entrever.
Desde muito cedo a psicanálise reconheceu que o silêncio pode funcionar como uma forma de resistência. Em Recordar, repetir e elaborar, Sigmund Freud descreve como o sujeito frequentemente repete ou interrompe o movimento da fala justamente quando se aproxima de algo que ameaça emergir na análise. O silêncio, nesses casos, torna-se uma maneira de evitar a implicação subjetiva. Mas na cena evocada algo parecia ir além da resistência.
O silêncio operava como gesto de domínio. Ele deslocava a cena analítica para um campo de poder: quem fala, quem espera, quem suporta o mal-estar.
Essa dimensão ganha outra leitura quando introduzimos o conceito de gozo. Em O Seminário 11, Jacques Lacan lembra que a experiência analítica não se organiza apenas em torno do sentido, mas também em torno de uma satisfação paradoxal que insiste para além do princípio do prazer. Em certas configurações clínicas, o sujeito pode extrair gozo justamente do mal-estar que produz no outro. O silêncio, então, deixa de ser apenas resistência e passa a funcionar como uma pequena cena de gozo.
Não falar torna-se uma forma de controlar o campo do discurso.
Lacan também nos lembra que o olhar ocupa um lugar decisivo na economia subjetiva. O pequeno sorriso e o olhar vigilante que acompanhavam o silêncio pareciam indicar precisamente essa dimensão: o sujeito observava o efeito de sua recusa em falar.
A sessão transformava-se em uma espécie de palco onde o analista era convocado a ocupar a posição daquele que espera, que insiste, que suporta o vazio.
Diante desse tipo de configuração clínica, a posição do analista torna-se decisiva. Se o analista responde ao silêncio com ansiedade ou com a tentativa de preencher o vazio, corre o risco de reforçar a cena de domínio que o sujeito tenta instaurar. A ética da psicanálise aponta para outra direção.
O silêncio do analisando não precisa ser combatido, mas tampouco precisa ser acolhido como estratégia de poder. Às vezes o gesto analítico consiste simplesmente em não entrar no jogo que o silêncio tenta impor.
Porque, quando o silêncio é usado como domínio, ele deixa de ser intervalo da palavra.
Ele se torna um modo de gozo.
E é justamente aí que algo da análise pode começar.
Bibliografia
FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914).
FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926).
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964).
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise (1969–1970).
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