Salomão,

​imagem: acervo pessoal.

Salomão. 

Eu sempre o chamei assim, como se o nome carregasse um peso antigo demais para eu cortar pela metade. Salomão. Há nomes que exigem a inteireza do som, como se qualquer abreviação traísse o espírito da pessoa. E ele era assim: inteiro, mesmo quando o mundo à volta parecia fragmentado pela juventude que ainda não sabia quem era.


É curioso pensar nisso agora. Nós éramos jovens, mas ele não era. Não que tivesse mais idade, era outra coisa. Salomão já nascera alma velha. Havia nele um sopro ancestral, um timbre que misturava vento, alvorada e uma sabedoria que não se aprende em livros. O falso africano alemão falava  palavras que vinham dessa encruzilhada de idiomas. Mas era mais do que isso: era como se carregasse dentro dele o rumor de muitos povos. Cada vez que eu me aproximava, a paisagem mudava. Ficávamos os dois ali, na PUC, mas eu sentia o chão da África sob os pés.


No primeiro dia de aula houve a pegadinha para os calouros — aquela cena sempre meio constrangedora, meio engraçada. Ele segurava tudo com uma seriedade deliciosa. Levava a sério e ria com os olhos. Era assim: dizia algo certeiro, firme, e logo um clarão de riso atravessava o rosto. Eu fiquei com essa imagem guardada como quem guarda uma chave.


E então, um dia, no Condô Cultural, eu virei para o lado e vi Saloma Salomão. O mesmo. Não era parecido. Era ele — exatamente ele, com quarenta anos de diferença dissolvidos numa espécie de dobra do tempo. Como se o corpo tivesse sido preservado por um cuidado silencioso, talvez por um narcisismo saudável, desses que não se ofendem com o viver, mas preservam o brilho.


A sensação foi imediata: a África voltou. Voltou no gesto, no olhar, no modo como ele me escutou. Lembramos de uma  conversa que tivemos sobre leituras. Ele trouxe a cena inteira de volta. E quando ele contou, eu senti que a memória dele também era um lugar onde eu tinha permanecido.


Salomão foi uma espécie de bússola teórica para mim — um oráculo discreto. Tudo que eu procurava nos livros, ele me apontava com uma frase, com um sopro, com poesia salomaniana. Eu nunca esqueci daquele dia em que eu precisava apresentar o seminário sobre As Palavras e as Coisas, do Foucault. A tensão me atravessava inteira: o medo de não estar à altura, a ansiedade que mordia a garganta. 


Eu contei isso para ele, esperando talvez um conselho prático, um caminho curto. Mas ele me olhou — aquele olhar que parecia vir de um tempo antes do tempo — e disse apenas:


“Leia os autores que falam sobre o Foucault. Caminhe devagar até ele.” ( Saloma Salomão).

Comentários

  1. O Rei Salomão sempre será sábio e em todas as eras. Principalmente no Brasil e na África. Principalmente quando o nosso sonho for o mesmo: o fim da desigual de social...

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