Quando a Matéria se Inclina ao Invisível




Cláudia Freire, em diálogo com Awasury Kariri-Xocó/Fulka-Xó

Awasury trabalha num território anterior à forma. Sua arte nasce do espaço em que gesto e espírito se tocam, numa região em que o visível ainda não se decidiu, mas já pulsa. Ele cria no intervalo onde o toré¹ encontra a mão, onde a matéria aguarda um chamado para revelar o que guarda.

A madeira, o ouricuri², a semente — nada disso lhe chega como recurso. São presenças. Cada uma carrega um temperamento, um modo de responder ao toque, uma história que não está escrita em lugar algum, mas que permanece viva na fibra. Por isso, seu ofício não se apoia em domínio, e sim em escuta: a conversa silenciosa entre o criador e o que se oferece para nascer.

No traço que se repete, não há automatismo. Há rito. Um ritmo que ecoa antigas passagens, lembranças que não dependem de língua para existir. O desenho não pretende representar — ele convoca. Mantém abertas as portas por onde transitam forças que não desapareceram, apenas mudaram de lugar. Cada grafismo estabelece continuidade entre o agora e aquilo que resiste no plano dos encantados³.

A cura que emerge desse trabalho não busca corrigir nada. Ela reorganiza. Restitui densidade ao instante. A peça não se limita a ocupar um espaço; ajusta a vibração ao redor, devolvendo vínculo ao que estava disperso. Awasury opera no ponto em que o artesanal ultrapassa a técnica e se torna modo de existir.

E, quando a criação chega às mãos de alguém, algo sutil acontece. Não se trata de objeto pronto: é uma travessia que se abre. Entre o gesto que moldou e o corpo que acolhe, forma-se um campo que não se descreve: percebe-se. Um movimento delicado que atravessa sem anunciar nome algum.

A peça [xama].

Chama quem a recebe para um território anterior à palavra, onde matéria e espírito se reconhecem. Aproxima o que estava distante, reata o que se perdeu no ritmo dos dias, oferece uma reconciliação que ninguém pediu, mas que se sente imediatamente.

É assim que a obra de Awasury se completa: não ao terminar, mas ao encontrar.

Ele não cria objetos.

Ele faz encontros — delicados, potentes, etéreos, inteiros.

O artesanal, em suas mãos, não é técnica nem ornamento.

É aliança.



Notas

¹ Toré — Ritual fundamental de diversos povos indígenas do Nordeste, entre eles os Kariri-Xocó. Realizado em círculo, com cantos, maracás e passos marcados, articula força espiritual, memória ancestral e a presença dos seres não visíveis. É prática de cura e afirmação coletiva, não espetáculo.

² Ouricuri — Semente proveniente da palmeira ouricuri (ou licuri), considerada matéria de grande força espiritual para os povos do Nordeste. É usada em rezas, artesanato, rituais e objetos de proteção. Carrega estatuto simbólico: é vida condensada.

³ Encantado — Ser espiritual que habita florestas, rios, ventos e planos paralelos ao mundo humano, com poder de orientar, proteger ou advertir. Para os Kariri-Xocó, não são figuras mitológicas, mas presenças ativas com as quais se mantém relação contínua por meio de cantos, danças e rituais.

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