O feitiço de Áquila,

Imagem: instragram
Um peixe pode amar um pássaro, diz a imagem que circulou no Instagram — mas onde eles poderiam viver?
Essa pergunta atravessa silenciosamente muitas relações humanas. Não é a força do amor que está em jogo, mas aquilo que sustenta o amor. O pássaro respira o ar, o peixe respira a água. Cada um carrega um mundo inteiro inscrito no corpo, nas necessidades, na maneira de existir. Quando dois mundos assim se olham, nasce uma ternura imensa, mas também a impossibilidade.
A imagem do pássaro inclinado sobre a água e do peixe que emerge para vê-lo lembra amores que acontecem apenas nesse ponto suspenso entre dois universos. Eles se reconhecem, se desejam, mas não encontram um território onde viver. O meio que sustenta um asfixia o outro. É um amor que existe no gesto, mas nunca chega à casa.
Lembro de *O Feitiço de Áquila, aquele filme que marcou uma geração inteira com a beleza trágica de um amor condenado ao desencontro. Ela, mulher na noite. Ele, lobo durante o mesmo período. Quando ela vira pássaro, ele retorna homem. A cada amanhecer e anoitecer, os dois se tocam apenas por um segundo — um milagre breve, um corte de luz. Um instante de amor que não pode se prolongar. Eles não se olham como pássaro e peixe, mas como pássaro e lobo, noite e dia, tempo e contratempos. O feitiço é justamente essa falta de habitat comum: é o amor que existe, mas não tem lugar para viver.
Assim também são certos encontros humanos. Alguém oferece afeto, mas não oferece ar. Alguém abre o mundo, mas não abre o chão. E, como em Áquila, resta apenas o minuto impossível do encontro: belo, intenso e mortalmente insuficiente. Não faltou amor — faltaram tempo e lugar.
A maturidade talvez esteja em reconhecer que amar não é só sentir: é também poder viver no mesmo território simbólico. É ter um chão compartilhado, uma atmosfera comum, um pedaço de mundo onde o amor não precise escolher entre existir e sufocar.
Entre a água e o céu, entre a noite e o dia, há amores que permanecem silenciosos. O feitiço, às vezes, está exatamente nisso — na dor do impossível de dizer”.
Cláudia.
*O Feitiço de Áquila (Ladyhawke, 1985, direção de Richard Donner, fotografia de Vittorio Storaro).
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