O Método:

“Política não é metafísica. Não é encenação discursiva, nem jogo simbólico desligado da realidade. Política diz respeito a algo mais prosaico e, por isso mesmo, mais difícil: administração, cuidado, manejo do que é comum”.
A repetição íntima e coletiva vai, pouco a pouco, corroendo a possibilidade de uma sociedade mais arejada das identificações. O país transborda conflitos, mas talvez o problema não seja o excesso deles, o que se repete é justamente o fato de que esses conflitos nunca são atravessados. Eles retornam sempre ao mesmo ponto, com os mesmos nomes, os mesmos discursos, a mesma gramática que gira sem sair do lugar.
O cansaço que daí resulta costuma ser lido como desinteresse político. Mas não se trata disso. É saturação. Há nomes que, quando anunciados, já trazem consigo todo o discurso, antes mesmo que a fala comece. O que se escuta não é excesso de palavra, mas ausência de trabalho. O discurso vem pronto, sem risco, sem deslocamento, repetido não por convicção, mas porque não houve elaboração.
Sem análise e sem luto, o pensamento não se renova; as peças permanecem nas mesmas posições. A luta, quando ocupa o lugar do luto — e este parece ser um traço marcante do nosso tempo —, impede qualquer avanço, pois não toca o ponto que efetivamente bloqueia o deslocamento. A repetição deixa de ser reconhecida como sintoma e passa a ser valorizada como virtude. O problema não está em repetir — toda história repete —, mas em repetir sem elaborar. Quando não escutada, a repetição deixa de ser questão e passa a operar como método.
E aqui o termo “método” precisa ser levado a sério. Não como procedimento crítico, mas como aquilo que se apresenta como saber consolidado, eficaz, fechado em si mesmo. Um saber que não se interroga mais, porque acredita já ter funcionado. Esse método passa então a circular sob a aparência de novidade, quando, na verdade, é apenas a estabilização do que nunca foi questionado. O velho retorna, agora com outro nome.
É nesse ponto que a política começa a se perder. Não porque desapareça, mas porque se desvia. Política não é abstração, nem teatro discursivo. É administração de um país concreto, de uma população concreta, de uma vida coletiva que exige cuidado contínuo. Quando a política se reduz à repetição de discursos, o país deixa de ser administrado e passa a ser ocupado.
Não se trata apenas de herança familiar, embora ela exista. Trata-se da transmissão de modos de governar, de falar, de ocupar o poder. Os lugares permanecem, os gestos se repetem, os representantes se sucedem sem que nada seja efetivamente reorganizado. O país deixa de ser pensado como algo a ser cuidado e passa a ser tratado como algo a ser mantido sob controle.
Os efeitos disso não são apenas institucionais. São psíquicos. Um país pode suportar crises, conflitos, até rupturas. O que ele não suporta indefinidamente é a repetição sem elaboração. Esse tipo de repetição desgasta o laço social, empobrece o pensamento, enfraquece a vida acadêmica e tende a reduzir os sujeitos à condição de objetos administráveis, domináveis, enganáveis.
Quando a política deixa de ser espaço de invenção e se transforma apenas em reprodução, o país entra numa zona de borra: a política já passou por ali; o gesto de administrar já ocorreu em algum momento da história, o que resta é um espessamento sem circulação. Não há fluxo, não há passagem. Há acúmulo. O colapso não vem como explosão imediata, mas como desgaste contínuo. Estamos psiquicamente exaustos. E um país exausto não cria, não projeta, não se administra. Apenas resiste até onde dá.
Resta então a pergunta: por quanto tempo ainda sustentaremos posições regredidas, esperando um gesto de afago — um aceno, um presente, uma promessa mínima? Hoje, os presentes mudaram ou continuam os mesmos?
O afago é partilha desigual do país, como se alguns humanos tivessem, desde sempre, mais direitos hereditários do que outros.
Cláudia Freire.
Vivemos na Pólis do Desamor. É preciso descordializar o homem brasileiro. E isso será impossível. Mas Claúdia nos sinaliza com clareza alguns possíveis caminhos. E a vida se torna a única opção de escolha e oportunidade.
ResponderExcluirHeron Coelho
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