A Crise da Narração e a Desarticulação da Memória



Vivemos tempos em que a narrativa parece ter perdido o lugar que antes ocupava no tecido das experiências humanas. No lugar da construção cuidadosa de enredos e sentidos, nos vemos inundados por um fluxo incessante de informações. Este é o ponto de partida de Byung-Chul Han em A Crise da Narração. Ele observa que, no século XXI, a informação predomina, mas a capacidade de narrar – de criar histórias com profundidade, que conectem memória, imaginação e entendimento – está em declínio.


Essa reflexão ressoa profundamente quando pensamos nos processos de memória, tanto individuais quanto coletivos. A narrativa, segundo Han, exige tempo e espaço. Ela só pode emergir a partir de uma distância dos acontecimentos, que permita a quem narra digerir, articular e transformar o vivido em uma história que faça sentido. Mas a pressa e a fragmentação da modernidade destroem esse espaço.


A ligação disso com o Alzheimer é inevitável. A doença, conhecida por desarticular a memória, pode ser vista como uma metáfora do que acontece com a sociedade contemporânea. Assim como o Alzheimer desorganiza o passado e o presente no indivíduo, a ausência de narrativas desarticula o pensamento coletivo. Memória e narrativa são inseparáveis. Narrar é lembrar, é dar sentido ao que passou e integrá-lo ao presente. Sem narrativa, a memória enfraquece – no cérebro e no mundo.


Han também sugere que a falta de paciência para escutar é um sintoma grave desse tempo. Escutar requer atenção, concentração, e a capacidade de se esquecer de si mesmo para mergulhar no que é ouvido. Esse processo de escuta profunda não apenas sustenta a narrativa, mas também ajuda a gravar memórias e a construir sentidos duradouros. Quando deixamos de escutar, perdemos a capacidade de narrar, e a memória se torna fragmentada, enfraquecida, como uma coleção de peças desconexas.


A crise da narração se reflete no vazio de sentido que permeia a vida moderna. Paradoxalmente, vivemos uma era obcecada pelo storytelling – um termo inflacionado que, em sua aplicação mais comum, se reduz a estratégias de impacto imediato. O storytelling nas redes sociais, na publicidade ou na política é superficial; ele visa emocionar ou persuadir rapidamente, mas não deixa marcas duradouras. Ao invés de construir narrativas ricas, ele colabora para o vazio narrativo de que fala Han.


E aqui está o ponto crucial: assim como a narrativa sustenta a memória, sua ausência também pode contribuir para o seu colapso. Na falta de histórias articuladas, o cérebro perde sua capacidade de organizar experiências e encontrar sentido nelas. O Alzheimer, que priva o indivíduo da capacidade de acessar o próprio passado e o integrar ao presente, parece uma analogia biológica para a desarticulação que vivemos no plano cultural.


Han menciona Heródoto, o grande narrador da Antiguidade, como um exemplo de uma época em que contar histórias era uma forma de compreender o mundo e registrá-lo para além do imediato. Hoje, a imprensa e os dispositivos tecnológicos nos oferecem informações rápidas e incessantes, mas que não constroem memória. A imprensa, que nasceu como um instrumento da burguesia e do capitalismo, prioriza a velocidade e o impacto, e não o tempo necessário para narrar.


Esse declínio da narração, tanto no plano individual quanto no coletivo, é alarmante. Quando não temos mais histórias, não temos mais memória. Quando não narramos, perdemos o fio que conecta o passado ao presente, que dá sentido ao que somos. Isso vale para a sociedade e para o indivíduo.


O estudo de Byung-Chul Han, portanto, nos ajuda a entender não apenas o impacto social da crise da narrativa, mas também a refletir sobre como essa crise se reflete no funcionamento do cérebro humano. A perda da memória, seja por doenças como o Alzheimer ou pela fragmentação do pensamento contemporâneo, é sempre uma perda de histórias. E sem histórias, somos incapazes de nos lembrar quem somos.

Comentários

  1. Parece-me, poeta,que essa crise realmente alarmante da narração esteja ligada à desvontade da elaboração de representações simbólicas propiciada pela suposta praticidade duque a tecnologia trás. E no caso do Brasil Rio, que é vagabundo por deformação da Cordialidade conceituada por SB Holanda, acerca de nossa incapacidade de lidar com temas mais profundos. As pessoas não escutam mais e querem ser escutadas em suas vidas vazias. Talvez o fascismo linguístico ironizado por Barthes tenha se tornado um pesadelo à parte.

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