Do buraco à falta - a travessia analítica


Quem já começou um processo de análise em um momento difícil da vida sabe que há uma imagem recorrente: o buraco. Estou num buraco, dizem os analisandos, muitas vezes sem conseguir explicar exatamente do que se trata. O buraco não é apenas um lugar, mas uma sensação de fechamento, de não ter por onde sair, de ser engolido por algo que não se nomeia. O buraco não tem bordas, não tem linhas, não tem espaço para desenho. O buraco é tudo, e, quando se está nele, não há nada além dele.

O tempo passa e, se a análise acontece, algo muda. O buraco, que parecia definitivo, dá lugar à falta. Essa passagem não é evidente, nem imediata. Ela acontece no ritmo singular de cada um, mas, quando se dá, a diferença é decisiva. O buraco aprisiona, mas a falta liberta. Porque a falta, ao contrário do buraco, abre um espaço. A falta não se fecha sobre si mesma, ela permite uma borda, um contorno, um intervalo onde algo pode ser inscrito. É nesse espaço que o sujeito pode começar a desenhar.

Mas a falta, justamente por ser um espaço vazio, também angustia. É nesse ponto que a análise trabalha: falar da falta, nomeá-la, cercá-la de palavras até que ela se torne habitável. E é aqui que algo fundamental acontece: o sujeito começa a falar de desejo. Um desejo que, paradoxalmente, nunca se realiza. Um desejo que nunca se cumpre, porque o desejo, por estrutura, não se satisfaz.

O desejo, então, passa a ser um problema. Porque desejar é lidar com o impossível, é suportar a incompletude, é habitar um espaço onde nunca se tem tudo. Como diz Forbes, há um momento em que o sujeito percebe que, no fundo, ele não quer exatamente o que deseja. Esse deslocamento pode ser desconcertante, mas também abre caminho para algo novo: o desejo deixa de ser um peso, uma demanda, um obstáculo, e passa a ser uma trilha. Um caminho mais suave, onde já não se trata de uma corrida desesperada para preencher a falta, mas sim de uma relação diferente com ela.

E, nesse caminho, surgem as palavras. As letras, o tom, o som da voz. O desejo encontra uma forma de se dizer, de se articular, de se inscrever. A linguagem deixa de ser apenas um meio e se torna um lugar possível de encontro com o outro.

E talvez seja só então que o sujeito descubra que nunca se tratou de sair do buraco, nem de apagar a falta, mas de aprender a andar dentro dela. De fazer da falta um chão possível, onde a vida não precisa mais ser um campo de batalha entre o que se tem e o que se perdeu, mas sim um espaço onde se pode habitar, criar, desenhar e seguir desejando.




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