Bréche e Petit - cavalos imortais, ‘O Germinal’, de Èmile Zola.
“Ele seria pó, um sopro invisível na eternidade”.
O ar era pesado, úmido e escuro, uma prisão invisível que engolia tudo. Lá no fundo da mina, a luz do sol não existia, e os cavalos viviam num mundo onde o dia e a noite eram palavras sem sentido. Eles eram levados jovens, com o vigor pulsando nos músculos e a inocência brilhando nos olhos, mas não demorava para que o brilho fosse apagado. A terra sugava a vida aos poucos, como um parasita faminto.
O mais velho entre eles, Bréche, lembrava-se de quando desceu pela primeira vez. O barulho das máquinas, o grito dos homens, o calor sufocante. Nunca tinha imaginado que existisse um mundo assim, tão diferente do campo onde nascera. Lá em cima, havia o vento, o céu azul, os cheiros do pasto. Aqui embaixo, só existia o trabalho. Carregar vagonetes repletos de carvão, dia após dia, até que as patas tremessem e os ossos protestassem. Não havia descanso verdadeiro, apenas pausas momentâneas entre um turno e outro.
O mais jovem - Petit, ainda não tinha perdido a esperança. Falava em escapar, em subir para a superfície, como se fosse uma promessa que alguém pudesse cumprir. Bréche ouvia com um cansaço antigo. Sabia que ninguém voltava para o mundo de onde vieram. Quando envelheciam, eram simplesmente deixados ali, substituídos por outros mais fortes, mais jovens, que também aprenderiam a conviver com o peso invisível da terra sobre seus corpos.
– Por que não podemos voltar? – perguntou Petit uma noite, enquanto a mina dormia. A voz dele era fina, um fio de curiosidade e desespero.
Bréche não respondeu de imediato. Seus olhos, acostumados à escuridão, fitavam um ponto invisível. Então, suspirou.
– Porque, para eles, somos como as pedras que arrancam do chão. Ferramentas. Quando quebramos, nos deixam aqui, como parte da mina. Somos a terra agora.
Petit não entendeu de imediato, mas o silêncio de Bréche era pesado, definitivo. Eles não eram mais animais do campo. A mina os engolia, transformando-os em algo diferente: sombras que existiam apenas para mover as rodas e alimentar as chaminés de uma máquina insaciável.
O tempo passava, e os cavalos iam sendo substituídos. Bréche viu Petit envelhecer, assim como ele próprio havia envelhecido. E, um dia, quando suas patas finalmente cederam e ele já não conseguia arrastar os vagonetes, foi deixado ali, num canto esquecido da mina. As máquinas continuaram roncando, indiferentes à sua ausência.
Mas, no silêncio do fim, Bréche pensou em algo que nunca havia ousado sonhar. Talvez, quando seu corpo finalmente se misturasse à terra, pudesse escapar, não para o céu azul que tanto desejara, mas para algo maior, algo que os homens e suas máquinas nao pudessem controlar. Ele seria pó, um sopro invisível na eternidade.
E, enquanto o último suspiro se misturava ao ar pesado, Bréche sorriu pela primeira vez. Afinal, o que restava da liberdade, senão o sonho de um cavalo que nunca desistiu de pertencer ao mundo lá fora?
*Ainda choro quando lembro da narrativa de Èmile e os gritos dos cavalos, desesperados. Ninguém olhou, nem orou por eles. Foram meses de análise chorando junto com eles.
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