Três mulheres em roda: um ensaio sobre saber, ser e agir Por Cláudia Freire
Elas não se sentam em mesas redondas nem usam jaleco branco. Preferem os círculos de terra, as conversas à sombra, a pausa depois da pergunta. Epistemologia, Ontologia e Ética — três mulheres que caminham juntas, mas nem sempre falam a mesma língua. Quando se escutam, no entanto, algo se abre no mundo. Algo se move.
Epistemologia é a que mais questiona. Tem os olhos afiados e a escuta desconfiada. Quer saber como sabemos o que dizemos saber. Herdou de Platão a obsessão pela verdade e aprendeu com Descartes a duvidar. Mas já andou por outras terras. Com Boaventura de Sousa Santos, descobriu que o Ocidente não é o centro do mundo e que há um “ecossistema de saberes” ignorado pela razão dominante. Aprendeu com Sandra Harding a desconfiar da neutralidade da ciência. Com os povos originários, começou a entender que conhecimento também se dança, se sonha, se planta.
Ela ainda gosta de bibliotecas, mas já sabe que o saber também mora no corpo, no silêncio, na pedra, na folha de chá. Quando encontra uma mulher indígena que, ao tocar a barriga de uma criança, diz que ela está triste por causa da ausência do rio, epistemologia suspende seu julgamento e escuta. Não como quem tolera — mas como quem aprende. Porque a epistemologia indígena desafia a ideia de que só existe um jeito legítimo de conhecer o mundo — e propõe uma pluralidade de formas de saber.
Ontologia é mais silenciosa. É a que pergunta: “O que é?”
Enquanto epistemologia quer saber como conhecemos, ontologia quer saber o que existe. Aprendeu com Aristóteles que há substâncias e acidentes. Com Heidegger, que o ser se oculta e se revela no tempo. Mas, com o pensamento ameríndio, teve que rever tudo.
Porque lá, o ser não é individual, mas relacional. O jaguar é gente quando sonha. A criança é rio quando chora. Como nos lembra Ailton Krenak, “a humanidade não é medida por um metro ocidental”. Em Davi Kopenawa, ontologia treme: os xapiri, os espíritos da floresta, não são metáforas — são presenças. Ontologia percebe que sua pergunta “o que é real?” não pode ter apenas uma resposta. Há muitas ontologias, e a ocidental é só uma entre outras possíveis.
Ética, por sua vez, é a que age com as mãos. A que pergunta: “E agora que você sabe e reconhece o que existe — o que você faz com isso?”
Ela cuida dos vínculos. Aprendeu com Spinoza que o bem é aquilo que aumenta a potência de existir. Com Lévinas, que a responsabilidade começa com o rosto do outro — e não com a lei. E, sobretudo no Brasil, ela aprendeu que o Direito, muitas vezes, escuta mais a norma do que o sujeito. Faltam ouvidos para o singular. Há vertentes do pensamento jurídico que reconhecem a particularidade da história de cada um, mas na prática, o sistema ainda funciona como se houvesse um modelo de gente, um molde. A justiça, nesse modelo, não escuta — ela enquadra.
Foi então que Derrida lhe soprou algo difícil de aceitar: que a justiça não pode ser confundida com o Direito. E mais: que não há ética sem o impossível. Mas não o impossível como o irrealizável — e sim como aquilo que não se pode prever, nem aplicar em série.Porque o gesto ético verdadeiro começa quando não há resposta pronta, e mesmo assim o sujeito se arrisca a escutar, a sustentar o que não se repete. Ética, então, não é obedecer a uma regra, mas se responsabilizar por um outro único, que não será jamais o mesmo outro de ontem ou de amanhã. É nesse salto — em que se age sem garantias — que a ética se realiza. É por isso que ela exige o impossível: porque exige uma escuta que não quer resolver, mas acompanhar. As três, quando se sentam em roda, sabem que nenhuma caminha sozinha.
Porque saber sem reconhecer o ser é construir sobre o vazio. Porque existir sem responsabilidade é o começo da destruição. Porque agir sem saber nem escutar é repetir o erro da colonização.
Epistemologia pergunta. Ontologia sustenta. Ética responde.
E quando essas três se ouvem com atenção, o mundo se refaz em outros termos. Não mais o mundo do controle, da técnica e da velocidade. Mas o mundo das relações, da escuta e da delicadeza. O mundo em que saber é tocar sem ferir.
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Referências:
BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS. A Crítica da Razão Indolente: Contra o desperdício da experiência. São Paulo: Cortez, 2000.
HARDING, Sandra. Ciência e feminismo. São Paulo: UNESP, 2001.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A Queda do Céu. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
LÉVINAS, Emmanuel. Ética e Infinito. Lisboa: Edições 70, 2008.
DERRIDA, Jacques. Força de Lei: O fundamento místico da autoridade. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2014.
SPINOZA, Baruch. Ética. Tradução de Tomás da Silva. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
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